A mobilidade em transformação está ampliando as exigências sobre lubrificantes, aditivos e fluidos automotivos, que passam a ter papel central na eficiência energética, na segurança e na durabilidade dos veículos. Esse foi um dos principais temas do XIX Simpósio Internacional de Lubrificantes, Aditivos e Fluidos, realizado pela AEA em 27 de outubro, no Millenium Center, em São Paulo (SP).
Com o tema “Ecossistema da Mobilidade: Conectando Pessoas, Tecnologia e Sustentabilidade”, o encontro reuniu especialistas da indústria, representantes de montadoras, fornecedores e instituições de pesquisa para discutir desafios tecnológicos, econômicos e regulatórios em um cenário marcado pela convivência entre motores a combustão, veículos híbridos e elétricos, além do avanço dos combustíveis renováveis.
Eletrificação, biocombustíveis e novas exigências técnicas
Na abertura, o presidente da AEA, Marcus Vinicius Aguiar, e a diretora de Lubrificantes da entidade, Roberta Teixeira, destacaram a importância da inovação e da colaboração entre os diferentes segmentos da cadeia automotiva para desenvolver soluções adequadas às necessidades da mobilidade brasileira.
Segundo dados apresentados por Sérgio Rebêlo, da FactorK, o consumo brasileiro de lubrificantes, hoje estimado em 1,7 milhão de metros cúbicos anuais, pode alcançar 2,2 milhões de metros cúbicos em 2035. Ao mesmo tempo, o País enfrenta o desafio da dependência externa de óleos básicos, matérias-primas essenciais para a fabricação desses produtos.
Rafael Ribeiro, da Chevron Oronite, destacou que os óleos básicos do Grupo III são fundamentais para determinadas formulações de baixa viscosidade, voltadas à eficiência energética. Ele afirmou que a substituição desses insumos, em situações de restrição de oferta, exige avaliações técnicas e, em alguns casos, novos testes e homologações para assegurar o desempenho dos produtos e o atendimento às especificações das montadoras.
A eletrificação também ocupou posição central nas discussões. Nos veículos híbridos, o funcionamento intermitente dos motores a combustão e as temperaturas mais baixas de operação criam condições diferentes das encontradas nos veículos convencionais. Por isso, os fluidos precisam oferecer maior proteção contra desgaste, corrosão e contaminação por água e combustível.
Já nos veículos totalmente elétricos, os fluidos assumem novas funções, especialmente no gerenciamento térmico de baterias, motores e componentes eletrônicos. Especialistas da Lubrizol, Richful e Infineum abordaram a necessidade de desenvolver formulações e métodos de avaliação específicos para essas aplicações, considerando transferência de calor, propriedades elétricas e compatibilidade com materiais.
Os desafios também se estendem às novas alternativas de propulsão. Robert Wulff, da alemã APL, apresentou resultados de pesquisa feita em parceria com a TotalEnergies sobre lubrificantes para motores a combustão movidos a hidrogênio. Em determinadas condições de teste, uma formulação específica reduziu em até 100 vezes a emissão de partículas, o que mostra o potencial de desenvolvimento de produtos adaptados a essa tecnologia.
O avanço dos biocombustíveis acrescentou outra dimensão ao debate. Alexandre Melo, da S&P Global Energy, informou que o Brasil tem capacidade instalada de aproximadamente 15,5 milhões de metros cúbicos anuais de biodiesel, com ociosidade estimada em pelo menos 30%. Mesmo assim, a ampliação da mistura ao diesel depende de avaliações técnicas, decisões regulatórias e condições de mercado.
Os impactos de maiores teores de biodiesel sobre o funcionamento dos motores e o desempenho dos lubrificantes também entraram na pauta. Especialistas da Afton Chemical e da Vibra Energia apresentaram resultados de testes com misturas de até 50% de biodiesel, além de experiências voltadas à redução do consumo de combustível e das emissões em equipamentos agrícolas e de mineração.
AEA defende inclusão dos fluidos automotivos no MOVER
Entre as iniciativas apresentadas durante o simpósio, ganhou destaque o trabalho da Comissão Técnica da AEA, em conjunto com o Sindicom, para ampliar a participação da indústria de fluidos automotivos no Programa Mobilidade Verde e Inovação (MOVER).
Carolina Silva, da Infineum e integrante da Comissão Técnica da AEA, apresentou o estudo que fundamenta o pleito encaminhado ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). A proposta busca o reconhecimento das atividades de pesquisa, desenvolvimento, testes e homologações de fluidos automotivos nos mecanismos de incentivo do programa, com base em sua contribuição para a eficiência energética, a redução de emissões e a durabilidade dos veículos.
A necessidade de avanços regulatórios também apareceu na apresentação de Fernanda Ribeiro, da Iconic, sobre a qualidade dos fluidos de arrefecimento. Embora existam normas técnicas brasileiras para esses produtos, seu cumprimento ainda não é obrigatório de forma geral. A especialista informou que um grupo de trabalho do Sindicom pretende avaliar, em 2027, entre 50 e 75 amostras disponíveis no mercado de reposição, para subsidiar discussões sobre requisitos de qualidade e fiscalização.
Patrícia Pavanelli, da Ipsos, também levou ao evento dados sobre comportamento do consumidor. Segundo a pesquisa apresentada, embora 67% dos brasileiros estejam dispostos a mudar seus hábitos de transporte para reduzir as emissões, apenas 36% consideram os veículos elétricos atraentes, índice abaixo da média global de 47%. O levantamento ainda mostra a relevância da infraestrutura de recarga e da qualidade do transporte público, o que indica que a transição para uma mobilidade mais sustentável depende de condições além da tecnologia.
O painel dedicado à visão das montadoras sobre a mobilidade do futuro, mediado por Margareth Carvalho, da AEA, reuniu Everton Lopes, da Mahle, Paulo Jorge, da Mercedes-Benz, e Raquel Mizoe, da General Motors. Os participantes defenderam maior integração entre montadoras, fornecedores e centros de pesquisa desde as etapas iniciais de desenvolvimento dos veículos.
Além disso, eles ressaltaram a necessidade de previsibilidade regulatória e de soluções capazes de conciliar descarbonização, segurança, eficiência e competitividade. Para os debatedores, os lubrificantes e fluidos terão papel cada vez mais estratégico nesse processo, contribuindo diretamente para o desempenho das novas tecnologias.
O encerramento do simpósio marcou a divulgação dos vencedores da Premiação SIMEA 2026, que reconhece trabalhos técnicos e científicos de destaque na engenharia automotiva. Nesta edição, cerca de 130 trabalhos foram propostos, 120 foram aprovados e aproximadamente 60 estudiosos apresentaram seus projetos durante o SIMEA 2026, com posterior disponibilização online. A avaliação envolveu cerca de 60 especialistas.
O prêmio de Melhor Trabalho foi concedido ao estudo “Especiação de hidrocarbonetos nas emissões de um veículo flex-fuel Proconve L8 com gasolina E22 e etanol hidratado”, na categoria Emissões e Poluentes Veiculares, elaborado por profissionais da Petrobras.
Outros nove trabalhos receberam Menção Honrosa em sete categorias, com destaque para temas como conforto embarcado, combustíveis e lubrificantes convencionais e alternativos, dinâmica e controle veicular, emissões e poluentes veiculares, gerenciamento de energia e powertrain avançados, manufatura e transformação digital.