A mobilidade urbana sobre trilhos entrou no centro do debate eleitoral com o lançamento da campanha No Trilho Certo, apresentado pela ANPTrilhos durante o Conexão ANPTrilhos, realizado em 26 de agosto, em Brasília. O encontro reuniu lideranças e especialistas do setor público e privado para discutir o planejamento e o desenvolvimento das cidades brasileiras.
Na abertura, a diretora-presidente da ANPTrilhos, Ana Patrizia Lira, apresentou dados da Confederação Nacional do Transporte que indicam forte migração para o transporte individual motorizado no país. Segundo a pesquisa citada, a divisão que era equilibrada em 50% para transporte coletivo e 50% para individual passou, em sete anos, para 68% de uso do transporte individual e 32% do transporte público.
A campanha busca recolocar o passageiro no centro das decisões sobre obras, investimentos e financiamento. Além disso, defende tarifas mais acessíveis, viagens mais rápidas, sistemas integrados e um modelo de custeio mais equilibrado, com repartição dos custos entre os diferentes beneficiários da mobilidade.
De acordo com a entidade, os sistemas metroferroviários atendem diretamente 49,8 milhões de pessoas em 73 municípios e geraram R$ 44,6 bilhões em benefícios econômicos e sociais apenas em 2025. O Estudo Nacional de Mobilidade Urbana também aponta 91 projetos e 1.749 quilômetros de novas redes, o que, segundo a ANPTrilhos, abre espaço para ampliar a qualidade de vida e reduzir tempos de deslocamento.
ANPTrilhos e a mobilidade urbana sobre trilhos no próximo governo
A proposta apresentada pela campanha se organiza em três frentes. A primeira prevê tarifa mais justa para quem usa o transporte público e financiamento permanente, com política nacional de modicidade tarifária compartilhada entre União, estados e municípios. Nesse eixo, a entidade sugere atualizar a lei do vale-transporte e criar fontes estáveis de recursos, como o fortalecimento da Cide-Combustíveis, pedágios urbanos ou taxas de congestionamento.
A segunda frente defende cidades integradas, mobilidade mais eficiente e governança metropolitana. A ANPTrilhos propõe instâncias de coordenação federativa para planejar os sistemas como rede única, com integração de rotas, tarifas e meios de pagamento.
A terceira proposta pede mais trilhos para as cidades e investimento contínuo na expansão da rede. A campanha sugere um patamar mínimo de R$ 20 bilhões por ano para ampliar trens e metrôs nas regiões metropolitanas, com prioridade para projetos estruturantes já mapeados pelo estudo nacional.
Investimentos, governança e integração dominam os discursos
Durante a abertura do evento, outras autoridades defenderam mais investimentos e coordenação para o setor. O presidente do conselho de administração da ANPTrilhos, Júlio Castiglioni, afirmou que o momento eleitoral representa uma janela de oportunidade para que a sociedade e os candidatos escolham o futuro da mobilidade urbana. Ao citar São Paulo, ele disse que a mobilidade urbana é o fator que abre a cidade para as pessoas.
O diretor de Relações Institucionais da CNT, Valter de Souza, destacou a queda nos investimentos em infraestrutura de transporte, de cerca de 2% do PIB em 1975 para aproximadamente 0,5% em período recente. Ele também afirmou que a atração de capital privado depende de segurança jurídica e celebrou a aprovação do Marco Legal do Transporte Público.
Jorge Bastos, diretor-presidente da Infra S.A., apresentou o Plano Nacional de Logística com horizonte até 2050 e informou que a estatal estuda ligar as capitais do Nordeste por trilhos, começando pelo trecho entre João Pessoa e Recife. Já Luciene Machado, superintendente do BNDES, afirmou que 86% das localidades brasileiras carecem de governança metropolitana integrada de transportes e disse que o estudo elaborado com o Ministério das Cidades mapeou 187 projetos prioritários nas 21 maiores regiões metropolitanas.
Encerrando a abertura, o ministro das Cidades, Vladimir Lima, afirmou que o transporte de passageiros sobre trilhos é estratégico para a produtividade e a sustentabilidade das metrópoles. Ele informou que o ministério destinou mais de R$ 7 bilhões em investimentos desde 2023 para obras de VLTs, trens, metrôs e terminais. Também destacou a seleção de mais de 15 mil ônibus elétricos ou de baixa emissão dentro das ações de descarbonização da frota pública.
A ANPTrilhos afirmou que a campanha pretende influenciar o próximo ciclo de governo com propostas para ampliar o uso do transporte coletivo e fortalecer a mobilidade como política pública permanente.