Inteligência artificial amplia vigilância nas rodovias e abre debate sobre educação no trânsito

A inteligência artificial já amplia a fiscalização nas rodovias brasileiras e reacende o debate sobre como transformar dados de vigilância em prevenção de acidentes e educação no trânsito. Câmeras conseguem identificar uso de celular ao volante, falta do cinto de segurança e outras infrações, o que permite autuações sem abordagem direta do motorista.

Em São Paulo, sistemas instalados em diferentes concessões já geraram milhares de registros. Segundo levantamento publicado pelo portal Estradas, câmeras da Renovias registraram 18.727 infrações entre outubro de 2024 e setembro de 2025. Na Rota das Bandeiras, a tecnologia contribuiu para 1.136 multas apenas em abril e maio deste ano. Já na Ecovias Raposo Castello, foram identificadas 2.316 infrações no primeiro mês de fiscalização, iniciado em agosto.

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  • A Resolução 909/2022 do Conselho Nacional de Trânsito permite a fiscalização por videomonitoramento, desde que a via esteja devidamente sinalizada e a infração seja constatada por autoridade ou agente competente.

    IA, fiscalização e prevenção nas rodovias

    Para o presidente do Sindicato Nacional dos Cegonheiros (Sinaceg), José Ronaldo Marques da Silva, o Boizinho, a fiscalização é necessária, mas a tecnologia também oferece uma oportunidade para algo maior do que a autuação.

    “Não somos contra fiscalização. Quem usa o celular ao volante, deixa de colocar o cinto ou assume uma conduta perigosa precisa responder por isso. O que não podemos é transformar uma tecnologia tão poderosa apenas em uma máquina de produzir multas. Cada imagem captada também é informação sobre como as pessoas estão se comportando na estrada. Precisamos transformar essa vigilância em educação, prevenção e segurança.”

    A possibilidade de acompanhar continuamente o fluxo de veículos produz uma quantidade de informações que antes não estava disponível. Além de registrar uma infração individual, sistemas inteligentes podem revelar comportamentos recorrentes, horários de maior incidência, locais críticos e situações que elevam o risco de acidentes.

    Esse conhecimento pode subsidiar campanhas educativas mais direcionadas. Se milhares de motoristas são flagrados usando celular, por exemplo, os registros permitem identificar onde e quando essa prática ocorre com mais frequência e desenvolver ações específicas para enfrentá-la. A mesma lógica vale para o uso do cinto, o transporte de crianças e outras condutas perigosas.

    Como transformar dados em mudança de comportamento

    Márcio Galdino, diretor regional do Sinaceg, avalia que esse deveria ser um dos principais ganhos da incorporação da tecnologia às rodovias.

    “É evidente que quem dirige usando o celular ou não coloca o cinto precisa ser fiscalizado. Mas não podemos apoiar uma indústria da multa e da punição como se aumentar o número de autuações fosse, sozinho, sinônimo de segurança. Se a tecnologia consegue enxergar milhares de comportamentos errados, ela também está nos mostrando onde precisamos educar. Esse conhecimento tem que voltar para o motorista antes que o erro termine em acidente.”

    A Polícia Rodoviária Federal também amplia experiências com novas ferramentas. Em março deste ano, a instituição anunciou testes de soluções em rodovias federais, incluindo reconhecimento de placas, identificação de infrações e geração de alertas em tempo real.

    Para uma categoria que tem a estrada como ambiente permanente de trabalho, a discussão ganha ainda mais relevância. O Sinaceg representa mais de 5 mil profissionais ligados ao transporte de veículos e acompanha temas relacionados à segurança e às condições das rodovias brasileiras.

    Galdino avalia que os resultados não deveriam aparecer apenas na quantidade de infrações detectadas. A redução de comportamentos perigosos ao longo do tempo também pode funcionar como indicador da efetividade da tecnologia e das ações educativas decorrentes dela.

    “Se hoje uma câmera registra mil motoristas cometendo determinada infração, nosso objetivo deveria ser fazer esse número cair amanhã. Não porque deixamos de fiscalizar, mas porque conseguimos mudar comportamento. Esse é o processo educativo que uma tecnologia dessa dimensão permite. Multar quem coloca vidas em risco é necessário. Fazer com que cada vez menos pessoas assumam esse risco é muito melhor.”

    A tecnologia já permite enxergar muito mais do que acontece nas rodovias. Agora, o desafio é usar esse olhar com precisão para evitar que a infração se repita e termine em acidente.

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