As concessões rodoviárias previstas para 2027, com R$ 102,7 bilhões em investimentos estimados pelo Ministério dos Transportes, devem acelerar a digitalização das rodovias no Brasil. O novo ciclo de leilões amplia o espaço para modelagem digital de projetos, simulações de tráfego e uso de drones no planejamento e na execução das obras, segundo avaliação da Autodesk.
A carteira apresentada em 15 de outubro, na B3, em São Paulo, reúne nove leilões de concessão e dois de otimização de contratos já existentes. O pacote prevê 569 quilômetros de duplicações e 550 quilômetros de faixas adicionais, com certames programados entre junho e dezembro de 2027, em cronograma sujeito a ajustes.
“Uma concessão exige decisões que terão efeitos por décadas. A engenharia digital ajuda a avaliar essas escolhas antes de iniciar a obra, com mais informações sobre custos, restrições do terreno e impactos no entorno”, afirma Sylvio Mode, diretor-presidente da Autodesk no Brasil.
Segundo o Ministério dos Transportes, cerca de 75% das mercadorias movimentadas pelo setor produtivo usam hoje o modal rodoviário. Nesse cenário, a empresa avalia que obras mais eficientes podem reduzir o tempo de veículos parados, ampliar a previsibilidade no recebimento de insumos e ajudar no planejamento de estoques.
BIM, simulações e drones ganham espaço nos projetos
A Autodesk afirma que suas soluções apoiam a comparação de alternativas de projeto, a antecipação de interferências e o acompanhamento das obras. Com isso, a companhia vê potencial para reduzir desperdícios e dar mais previsibilidade aos investimentos das concessões. A empresa também relaciona esse avanço às metas originais da Estratégia BIM BR, de 2018, que previu aumento de 10% na produtividade e redução de 9,7% nos custos de produção com a adoção da Modelagem da Informação da Construção (BIM).
Além disso, a digitalização acompanha novas exigências contratuais. Em julho de 2025, a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) estabeleceu diretrizes para a implantação do BIM nas concessões federais, com previsão de obrigatoriedade da metodologia. Em São Paulo, lotes como Nova Raposo, Rota Sorocabana, Paranapanema e Litoral Paulista também exigem planos de implementação do BIM.
Nova Serra das Araras vira vitrine de antecipação de prazo
Na Via Dutra, a nova Serra das Araras, que utiliza tecnologias da Autodesk no projeto e na construção, tem entrega prevista para 2027, dois anos antes do prazo contratual. A intervenção contempla quatro faixas por sentido e 24 viadutos. A RioSP, empresa da Motiva responsável pelo empreendimento, atribui a antecipação à intensificação das frentes de trabalho, com apoio das ferramentas digitais na coordenação dos serviços e na identificação de interferências que podem gerar retrabalho e atrasos.
“A integração de diferentes recursos permite avaliar intervenções antes de mobilizar equipes e máquinas, quando ainda é possível corrigir projetos com menor impacto sobre custos e prazos”, explica Sylvio Mode. Durante a construção, as plataformas digitais da Autodesk também permitem compartilhar projetos atualizados e acompanhar pendências, reduzindo erros por informações desatualizadas, desperdícios e atrasos.
Na definição de um traçado, o caminho mais curto pode exigir mais pontes, escavações ou desapropriações. Por isso, a engenharia digital permite comparar alternativas e estimar seus efeitos sobre o orçamento. Simulações de tráfego também ajudam a dimensionar ampliações, acessos e viadutos para a demanda dos próximos 20 a 30 anos, reduzindo o risco de novas intervenções no curto ou médio prazos.
“Na ampliação de uma estrada, é preciso considerar como construir enquanto milhares de veículos continuam circulando. Antecipar interferências e comparar soluções permite planejar melhor as etapas e buscar alternativas com menor impacto para os usuários e as comunidades”, diz Mode.
Antes do leilão, a tecnologia também ajuda a detalhar os estudos sobre as intervenções necessárias e seus custos. Com isso, o poder público define com mais clareza as exigências, enquanto os investidores conseguem dimensionar os riscos ao longo da concessão.
Na BR-381, entre Belo Horizonte e Governador Valadares, uma tentativa de concessão sem propostas em 2023 foi seguida por revisão dos estudos e da modelagem. O trecho foi leiloado em agosto de 2024, com previsão de cerca de R$ 9 bilhões entre investimentos e despesas operacionais ao longo de 30 anos. O contrato abrange 303,4 quilômetros.
Segundo a Autodesk, soluções da empresa foram usadas pela Infra S.A. na análise de alternativas para o empreendimento. O trabalho integrou um processo que também envolveu mudanças regulatórias e econômico-financeiras, com informações mais detalhadas para avaliar as intervenções e sua viabilidade.
“Estudos mais detalhados ajudam o poder público a definir o que será exigido e o investidor a avaliar o que precisará executar. A tecnologia contribui para essa análise ao tornar as alternativas e as restrições do projeto mais claras”, afirma Mode.