A saúde dos motoristas aparece como fator associado a quase um terço dos sinistros nas rodovias brasileiras, segundo levantamento da Polícia Rodoviária Federal (PRF) analisado pela Associação Brasileira de Medicina do Tráfego (Abramet). O dado inclui situações como fadiga, distúrbios do sono, transtornos mentais, mal súbito e consequências de doenças oculares, motoras e neurológicas.
Entre 2014 e 2024, a PRF registrou 4.339.762 ocorrências. Desse total, 2.144.175 sinistros de trânsito, ou 49,4%, tiveram relação com comportamentos dos condutores, como imprudência e excesso de velocidade. Já 1.206.491 ocorrências, o equivalente a 27,8%, se associaram à saúde física ou mental dos motoristas.
Jornadas longas e descanso insuficiente agravam o problema
A Lei nº 13.103/2015, conhecida como Lei do Descanso do Motorista, determina 11 horas ininterruptas de descanso a cada 24 horas. A legislação também limita a direção contínua a 5 horas e 30 minutos, com pausa obrigatória de 30 minutos antes da retomada do trabalho.
Mesmo assim, dados de pesquisa do Ministério Público do Trabalho (MPT) mostram que 56% dos caminhoneiros trabalham entre 9 e 16 horas por dia. Quase 25% ultrapassam 13 horas diárias, enquanto 43,7% dizem ter intervalo entre um dia e outro menor que 8 horas.
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Programas de acolhimento buscam reduzir riscos nas estradas
Diante desse cenário, empresas do transporte têm ampliado iniciativas de cuidado com os colaboradores. “A saúde física e mental é estrutural na cadeia logística do transporte rodoviário”, afirma Débora Kodama, gerente de Recursos Humanos da Ademir Transportes.
A companhia, que opera com mais de 600 veículos no transporte de combustíveis em todo o Brasil, adotou ações voltadas à saúde mental, inclusive um encontro com condutores dentro da campanha Setembro Amarelo. Na atividade, a empresa destacou a importância de identificar sinais de depressão e de buscar ajuda.
“Na discussão, reforçamos que cuidar da saúde mental dos colaboradores deve fazer parte da rotina das empresas, e não apenas ser uma ação pontual em campanhas como o Setembro Amarelo”, diz Débora.
Além disso, a transportadora mantém atendimento e acolhimento com psicólogas, faz checagens mensais de fadiga e oferece o programa Pausa que Protege, iniciado em dezembro de 2025. A iniciativa traz orientações sobre autocuidado, reforça a importância das pausas durante as viagens e reúne ações para melhorar a rotina nas estradas.
Em fase de levantamento de dados, o programa já identificou dores físicas relacionadas ao tempo prolongado ao volante. A empresa passou, então, a promover palestras com fisioterapeutas para ensinar exercícios de prevenção e alívio dos incômodos.
“Todo o nosso investimento em bem-estar visa, sobretudo, a saúde física e mental dos colaboradores”, afirma Débora Kodama. “Nessa proposta, também não podemos perder de vista algo igualmente importante: a efetividade e a segurança do transporte de combustíveis nas operações em todo o território nacional.”
