A viagem solo já se consolidou como comportamento relevante entre as brasileiras e pressiona o setor de turismo a rever serviços, roteiros e experiências oferecidas a esse público. Segundo levantamento do Ministério do Turismo em parceria com a UNESCO, 40% das mulheres afirmam que já viajaram sozinhas algumas vezes, enquanto 31,4% dizem fazer isso com frequência. Apenas 4,6% nunca fizeram uma viagem desacompanhada pelo Brasil.
Os dados mostram que o hábito deixou de ser exceção e passou a influenciar a forma como hotéis, destinos e operadores pensam a jornada da viajante. Para Vittória Gabriela, fundadora da Dona Meu Destino, o avanço desse perfil exige mais do que pacotes prontos: exige preparo, acolhimento e informação.
“Existe uma ideia de que viajar sozinha exige coragem, quando, na prática, exige preparação”, afirma. “Percebemos que a mulher não procura apenas um roteiro de viagem, mas a confiança necessária para viajar sozinha. Por isso, investimos fortemente em orientação e planejamento.”
Viagem solo feminina muda hábitos e exige novos serviços
A pesquisa aponta que o lazer lidera as motivações das entrevistadas, com 72,6% das respostas. Em seguida aparecem independência e liberdade, com 65,1%, além do autoconhecimento, citado por 41,4%. As viagens a trabalho representam 37,6%, enquanto 34,7% das mulheres viajam sozinhas para visitar familiares e amigos.
O estudo também revela mudança no tipo de experiência procurada. Atividades culturais atraem 68,3% das entrevistadas, o ecoturismo interessa a 64,2% e as experiências gastronômicas aparecem para 30,1%. Assim, o mercado percebe uma demanda crescente por vivências locais, e não apenas pela visita a destinos turísticos tradicionais.
As viagens solo já alcançam praticamente todas as regiões do país. O Sudeste concentra o maior percentual de mulheres que já viajaram desacompanhadas, com 72,9%, seguido pelo Nordeste, com 66,3%, pelo Sul, com 50,3%, pelo Centro-Oeste, com 37,3%, e pelo Norte, com 29,5%.
O perfil dessas viajantes também chama atenção. A faixa etária de 35 a 44 anos lidera, com 34,6% das participantes. Além disso, a maioria não tem filhos, embora muitas conciliem maternidade e deslocamentos individuais. Entre as viajantes solo com filhos, 17,7% têm um filho, 13,1% têm dois, 3,9% têm três e 1% têm mais de três filhos.
Vittória avalia que o aumento desse público obriga o turismo a abandonar soluções padronizadas. “Quando uma mulher decide viajar sozinha, ela muda a própria história. Quando milhões fazem o mesmo, elas transformam o turismo e influenciam a economia”, diz. “Elas procuram destinos onde se sintam acolhidas e seguras, hospedagens preparadas e serviços que compreendam esse perfil de viajante.”
Segurança segue como principal preocupação das viajantes
Mesmo com o avanço das viagens individuais, a segurança continua no centro das decisões. Seis em cada dez entrevistadas afirmam que já deixaram de viajar por receio da violência. Além disso, 60,6% dizem ter passado por alguma situação que gerou sensação de insegurança durante uma viagem desacompanhada.
Os riscos não se limitam à violência física. Furtos, golpes e fraudes também preocupam, sobretudo em áreas turísticas. Roubo de documentos, celulares e cartões pode comprometer toda a experiência, o que reforça a importância do planejamento e da prevenção.
Entre as orientações para quem pretende viajar sozinha, Vittória recomenda pesquisar hospedagens, restaurantes e atrações antes da partida, contratar empresas cadastradas no Cadastur, evitar divulgar localização em tempo real nas redes sociais e compartilhar o roteiro com pessoas de confiança. Ela também orienta atenção redobrada em locais turísticos, preferência por espaços bem iluminados e recusa a bebidas oferecidas por desconhecidos.
Para quem vai viajar de carro, a fundadora da Dona Meu Destino destaca a necessidade de checar pneus, óleo, fluidos, iluminação, documentos e itens de emergência antes de pegar a estrada. Ela também sugere planejar o trajeto com antecedência, manter o celular carregado, não rodar com o tanque na reserva e informar horários previstos de parada e chegada.
“Conhecer o básico sobre o próprio carro não significa ser mecânica. Significa saber identificar quando algo está fora do normal e evitar que um pequeno problema se transforme em um grande contratempo na estrada”, orienta.
Em caso de emergência, ela recomenda manter salvos no celular contatos como Polícia Militar, pelo número 190, SAMU, pelo 192, Corpo de Bombeiros, pelo 193, Central de Atendimento à Mulher, pelo 180, e Disque Direitos Humanos, pelo 100.
Segundo Vittória, o crescimento da comunidade de mulheres viajantes também cria um efeito de rede. “Muitas mulheres chegam dizendo que sonham em fazer uma viagem solo e, alguns meses depois, voltam com fotos da estrada e incentivando outras mulheres. Quando uma mulher percebe que outra conseguiu, ela entende que também é capaz”, conclui.