A indústria brasileira de pneus enfrenta um dos momentos mais desafiadores das últimas décadas. O avanço das importações, o aumento de irregularidades comerciais e a necessidade de maior equilíbrio regulatório pressionam toda a cadeia produtiva. O tema foi debatido na Arena de Conhecimento da Expobor e Pneushow 2026, em São Paulo, onde lideranças defenderam uma agenda conjunta para recuperar a competitividade nacional.
Mudanças estruturais no mercado brasileiro de pneus
Segundo Rodrigo Navarro, CEO da ANIP, o mercado brasileiro passou por uma mudança estrutural em poucos anos. Antes da pandemia, cerca de 68% da demanda era atendida pela indústria nacional. Atualmente, aproximadamente 69% dos pneus comercializados vêm do mercado internacional.
Medidas urgentes para equilíbrio competitivo
Navarro destacou a necessidade de fortalecer a política industrial e de comércio exterior. Ele defende equalizar alíquotas, discutir mecanismos antidumping, ampliar a preferência para produtos nacionais nas compras governamentais e criar uma política consistente de estímulo à indústria brasileira.
Cumprimento das obrigações ambientais
Fabricantes e importadores devem atender às metas de logística reversa previstas na legislação. Relatórios do Ibama indicam a existência de um passivo ambiental que precisa ser controlado adequadamente, segundo Navarro.
Combate às irregularidades e redução de custos
Ricardo Alípio Costa, presidente da ABIDIP, ressaltou a importância da atuação conjunta entre setor privado e governo para combater irregularidades. Ele afirmou que trabalham em propostas de elevação tarifária e no combate às irregularidades com Receita Federal, Inmetro e Ibama. O principal desafio da indústria é reduzir custos para ganhar competitividade frente aos produtos importados.
Diferenças de preços e inovação na cadeia da borracha
Adriano Viola, presidente da ABTB, apontou que diferenças de preço de até 500% entre pneus nacionais e importados levantam dúvidas sobre a equivalência técnica dos produtos. Ele defende ampliar a capacidade de inovação para reduzir a dependência de importados e aumentar a competitividade.
Recapagem e participação dos pneus importados
Giulio César Claro, diretor-presidente da ARESP, mostrou que a participação de pneus importados para reforma mais que dobrou, de 13,1% em 2020 para 27,5% em 2026. Pneus nacionais recuaram de 86,9% para 72,5%. O índice de recusa das carcaças ficou estável em torno de 11%, com pneus importados apresentando taxas ligeiramente superiores.
A recapagem permite reformar um pneu até três vezes, prolongando sua vida útil e reduzindo custos. O custo da reforma é menos da metade do valor de um pneu novo, tornando a recapagem uma alternativa econômica e ambientalmente sustentável para o transporte rodoviário.
Desafios para retenção de mão de obra qualificada
Stefania Giannoni, especialista da SLG Desenvolvimento de Pessoas, alertou sobre a guerra por talentos no setor. Empresas precisam rever estratégias para proteger suas operações diante da concorrência com novas formas de trabalho e serviços virtuais.
Inovação, automação e transformação digital passaram a determinar a competitividade. Colaboradores devem desenvolver competências digitais e comportamentais. A convivência de diferentes gerações e a perda de conhecimento acumulado, além do aumento de problemas de saúde mental, impactam os resultados das organizações.
Legislação ambiental, custos e desempenho na cadeia da borracha
Marcello V. Bernardini, consultor da Abrafiltros, apresentou os níveis máximos de emissão previstos pela legislação e falou sobre inspeções da Cetesb e a NR-15.
Leandro Paim, da ABR, explicou o cálculo de custo por quilômetro, mostrando que pneus melhores geram mais economia e um ciclo de vida mais completo, desde a extração da borracha até o descarte.
Antônio Xavier, da Dr. Pneu Brasil, analisou o amadorismo nos cuidados com pneus de carga e as oportunidades de profissionalização. O desperdício de borracha causa desgastes prematuros, aumento do custo por quilômetro e redução da vida média do pneu em cerca de 30%.
Desenvolvimento de compostos e logística reversa
Alexandre Iara, do Grupo Amazonas, destacou a importância do desenvolvimento de compostos de borracha em laboratório, com provas em produção para atender às necessidades dos clientes.
Júlio Cesar Martins, da Reciclanip, apresentou a evolução do sistema de coleta e destinação de pneus irreversíveis. São 1400 pontos de coleta no país, com monitoramento em tempo real. O desafio é ampliar a cobertura da logística reversa.
As feiras Expobor e Pneushow 2026 ocorrem de 23 a 25 de junho, das 13h às 20h, no Expo Center Norte, em São Paulo. Organizadas pela Francal, as feiras reúnem o setor para debater desafios e soluções para a indústria brasileira de pneus.