Dormir pouco ou mal pode ser tão perigoso quanto dirigir sob efeito de álcool. A sonolência reduz a atenção, o tempo de reação e a capacidade de decisão ao volante.
O papel do relógio biológico na fadiga ao volante
Segundo o médico Alberto Ogata, conselheiro da Associação Brasileira de Qualidade de Vida (ABQV), o relógio biológico regula funções do organismo ao longo das 24 horas, como sono, vigília, temperatura corporal, produção hormonal e níveis de atenção. Ele explica que dirigir exige vigilância constante, mas em períodos como a madrugada e o início da tarde, há uma queda natural do estado de alerta. Quando isso se soma à privação de sono, o risco de microssonos e lapsos de atenção aumenta significativamente.
Cronotipo e seu impacto no desempenho do motorista
O cronotipo é a tendência natural de cada pessoa funcionar melhor em determinados horários do dia. Quando um motorista trabalha em horários incompatíveis com seu relógio biológico, ocorre um desalinhamento que prejudica funções cognitivas essenciais, como memória operacional, atenção sustentada, velocidade de processamento e percepção de risco. Esse problema é mais grave entre motoristas profissionais que enfrentam jornadas longas, escalas noturnas, alimentação irregular e pouco descanso, favorecendo o “jet lag social”, que aumenta o risco de doenças metabólicas e cardiovasculares.
Privação de sono tem efeito semelhante ao álcool
Estudos científicos mostram que ficar acordado por muitas horas compromete o desempenho de forma semelhante ao consumo de álcool. Cerca de 17 horas contínuas de vigília podem causar prejuízos comparáveis a uma alcoolemia de 0,05%, enquanto 24 horas sem dormir equivalem a aproximadamente 0,10%. O médico alerta que, ao contrário do álcool, a sonolência é negligenciada, e os microssonos podem ocorrer sem que o motorista perceba.
Distúrbios do sono aumentam o risco de acidentes
Distúrbios como apneia obstrutiva do sono, insônia, narcolepsia e síndrome das pernas inquietas comprometem a qualidade do sono e elevam a probabilidade de acidentes. Na apneia, o sono é interrompido várias vezes, reduzindo a oxigenação e impedindo um descanso reparador. Mesmo após horas de sono, a pessoa pode acordar cansada, com sonolência diurna e redução da concentração. Além disso, a apneia está associada a doenças cardiovasculares, como hipertensão, infarto e AVC.
Gestão da fadiga nas empresas é essencial
Alberto Ogata defende que o combate à sonolência no trânsito não depende só da conscientização individual. Empresas com motoristas devem tratar a fadiga como risco ocupacional prevenível. Medidas importantes incluem rastreamento de distúrbios do sono, avaliações periódicas, encaminhamento para diagnóstico e tratamento, escalas compatíveis com o relógio biológico, pausas planejadas e uma cultura organizacional que permita relatar fadiga sem medo de punições. O especialista destaca que, ao gerenciar a sonolência, a empresa protege o trabalhador, reduz acidentes, diminui custos assistenciais e contribui para uma mobilidade mais segura.
Investir em programas estruturados de gestão da fadiga beneficia trabalhadores, organizações e a segurança viária, tornando o cuidado com o sono uma medida essencial de saúde ocupacional e prevenção de acidentes.
