eletrificação e etanol ganharam espaço no debate sobre a descarbonização do transporte no Brasil durante a 26ª Conferência Internacional DATAGRO sobre Açúcar e Etanol, em São Paulo. No painel “Eletrificação usando etanol – Tendência no Brasil?”, representantes da indústria automotiva, de veículos elétricos e da própria DATAGRO defenderam que o país pode unir motores elétricos e biocombustíveis para reduzir emissões sem abrir mão de vantagens da sua matriz energética.
Segundo os participantes, essa combinação pode fortalecer a competitividade da indústria nacional, ampliar as opções de propulsão e criar uma rota própria para a mobilidade de menor emissão. Além disso, o modelo pode inspirar outros mercados que buscam alternativas para acelerar a transição energética.
Híbridos flex e a vantagem da matriz brasileira
Igor Calvet, presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), afirmou que a indústria brasileira precisa acompanhar as transformações globais sem deixar de considerar as oportunidades do mercado interno. Para ele, as decisões de investimento acontecem em escala mundial, e o país precisa encontrar um equilíbrio entre tendências internacionais e características locais.
“Na minha visão, não adianta a gente dizer que vai ter um mercado fechado apenas com a tecnologia que a gente quer usar, sem incorporar os conceitos externos. Estamos em um mercado global, as decisões de investimento são globais e a conta também precisa fechar”, defende Calvet.
O executivo disse acreditar na neutralidade tecnológica e estimou que, até 2040, 80% dos novos emplacamentos de veículos no Brasil serão de modelos eletrificados.
Alexandre Baldy, vice-presidente sênior da BYD, afirmou que a empresa definiu o desenvolvimento de veículos híbridos flex como prioridade para adaptar a tecnologia ao mercado brasileiro. Ele citou o investimento de R$ 134 milhões nessa solução e destacou o BYD ATTO 2 DM-i, apresentado como o primeiro SUV compacto híbrido plug-in flex do mundo, com preço inicial informado de R$ 149.990.
“Essa associação das tecnologias é fundamental especialmente para a nossa realidade. Temos um país com 93% a 94% da matriz elétrica proveniente de fontes limpas ou renováveis, e temos o etanol. Aproveitar essa riqueza natural do Brasil é conectar a tecnologia à realidade que o consumidor brasileiro tem demonstrado”, considera.
Baldy também disse que a empresa já levou veículos para testes em outros mercados, incluindo a Índia, para avaliar a competitividade da tecnologia. Segundo ele, a expansão dependerá das características de cada país. O executivo relatou ainda que consumidores informaram autonomias superiores a 30 quilômetros por litro em determinadas condições de condução, sem detalhar os critérios de medição.
Desafios tecnológicos e próximos passos da transição
Ricardo Bastos, presidente da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), avaliou que a eletrificação seguirá avançando, mas não deve substituir integralmente os motores a combustão em todos os veículos. Nesse cenário, o uso de biocombustíveis nos motores que continuarem em circulação pode ajudar a reduzir as emissões.
“O Brasil sai na frente porque tem essa combinação de biocombustíveis com eletricidade renovável. Podemos, sim, influenciar outros países nessa direção, porque já temos a tecnologia e os híbridos plug-in também podem ser um caminho interessante”, comenta.
Para Bastos, o país precisa ampliar sua participação no desenvolvimento de tecnologias de eletrificação, com envolvimento de montadoras, fabricantes de autopeças e da indústria de biocombustíveis. Ele destacou que o desafio inclui a produção dos componentes, a origem das matérias-primas e o destino das baterias ao fim da vida útil.
O presidente da ABVE observou que a durabilidade crescente das baterias pode adiar a disponibilidade de unidades para reciclagem em escala industrial. Segundo ele, a reciclagem pode se tornar uma fonte relevante de matérias-primas, inclusive de lítio, mas esse cenário depende da maturação da cadeia e do volume de baterias disponíveis no futuro.
Bastos também apontou a produção nacional de baterias e componentes como uma oportunidade industrial para o Brasil, que ainda depende de fornecedores externos em etapas importantes dessa cadeia.
Moderado por Gerson Borini, consultor em engenharia automotiva do site Autoentusiastas, o painel reuniu representantes da BYD, da Anfavea e da ABVE. A discussão concluiu que a transição energética no transporte não depende de uma única tecnologia e que eletrificação, biocombustíveis e investimentos industriais precisam avançar de forma articulada.
A DATAGRO informou atuar há mais de 40 anos como consultoria agroindustrial independente, com presença global e foco em análises, notícias e dados sobre diversos mercados agrícolas e de energia. A empresa disse reunir 12 unidades de negócios e promover eventos como o Global Agribusiness Forum (GAF) e o Global Agribusiness Festival (GAFFFF).