O transporte sobre trilhos no Brasil acelera a transição energética para reduzir custos operacionais e a pegada de carbono. Esse foi um dos principais temas da 32ª Semana de Tecnologia Metroferroviária, em São Paulo, onde especialistas e representantes do Metrô de SP destacaram contratos de autoprodução de energia renovável como estratégia para ampliar a previsibilidade orçamentária e apoiar a mobilidade urbana sustentável.
O evento, promovido pela Associação dos Engenheiros e Arquitetos de Metrô (AEAMESP), reúne mais de 1,3 mil participantes até sexta-feira no Nikkey Palace Hotel, na Liberdade. Ao longo de 40 horas de programação, mais de 80 palestrantes nacionais e internacionais apresentam cases e debatem concessões, transformação digital, mitigação de riscos e sustentabilidade.
“A pluralidade temática do fórum, a expertise consistente dos painelistas e a disponibilidade e o interesse do público estão tornando estão tornando esta edição um marco absoluto para o debate técnico e o planejamento do setor metroferroviário“, afirmou Ayrton Camargo, presidente da AEAMESP.
Autoprodução de energia renovável ganha espaço no setor
Durante um dos painéis mais concorridos, Régis Takaoka, assessor executivo de Planejamento Financeiro do Metrô de SP, explicou como a companhia estruturou um contrato de migração para a autoprodução por arrendamento de energia solar, por meio do Mercado Livre de Energia. Segundo ele, a medida busca reduzir custos e avançar na transição energética.
A estatal avaliou dois modelos: o de joint venture, em que o operador entra como sócio capitalista da usina geradora e assume riscos operacionais e de engenharia; e o de arrendamento de planta, no qual o operador aluga o ativo de geração sem aporte de capital direto, enquanto o parceiro especializado assume operação e manutenção. Após uma chamada pública com 30 empresas e nove propostas qualificadas, o Metrô escolheu o modelo de arrendamento.
“Entre os fatores decisivos para a escolha estiveram a competitividade de preço, a qualidade da documentação técnica e o estágio consolidado de licenciamento do projeto junto aos órgãos competentes”, explicou o executivo.
O Metrô de SP usará energia solar do complexo Lagoa do Barro, no Piauí, construído pela multinacional chinesa CGN Energy. A planta tem capacidade instalada de 50 MW e energia assegurada de 20 MW, iniciou obras em 2025 e está em fase final de testes. O início das operações está previsto para os primeiros meses do próximo ano, com 10 MW.
O contrato, firmado por 15 anos, atenderá a tração dos trens das linhas 1-Azul, 2-Verde, 3-Vermelha e 15-Prata. “Estimamos uma economia de R$ 12 milhões por ano, em face à isenção de encargos do setor elétrico e mitigação de riscos ligados a crises hídricas ou sazonalidades do mercado regulado”, pontuou Régis.
Diretora jurídica e de compliance da CGN no Brasil, Silvia Rocha afirmou que a estrutura de longo prazo traz escala econômica e divide os riscos da contraparte de maneira equilibrada, o que torna a parceria sustentável financeiramente para ambas as partes.
Ela também chamou atenção para o desafio da intermitência das fontes renováveis, como a solar, que produz energia apenas durante o dia. Para aumentar a eficiência, o setor de tecnologia trabalha em superbaterias, conhecidas como BESS, para armazenamento de energia.
Além disso, Silvia Rocha disse que a CGN busca alternativas tecnológicas no Brasil para contornar os custos das baterias tradicionais de íon de lítio. “O problema atual não é o excesso de energia, mas sim a deficiência no seu aproveitamento ao longo das 24 horas do dia no Brasil. Por isso, estamos trabalhando em projetos piloto de tecnologia CSP (Energia Solar Concentrada), que estocam o calor do sol para acionar turbinas a qualquer momento. É uma tecnologia já consolidada na China para competir diretamente com a geração térmica, garantindo suprimento contínuo”, afirmou.
Debates também abordam multimodalidade e regulação ferroviária
Além da pauta energética, o auditório principal do Nikkey Palace Hotel recebeu discussões sobre gargalos logísticos e regulação. Representantes da MRS, da DP World Brasil e da Braso Logística apresentaram cases sobre integração multimodal e movimentação de contêineres no país.
Na sequência, palestrantes de empresas como Rumo e FIPS (Ferrovia Interna do Porto de Santos) analisaram os impactos do modelo de autorizações ferroviárias e como novos trechos privados e outorgas influenciam o ambiente de investimentos e o papel das concessionárias tradicionais na expansão da malha nacional.
CPTM, Grupo CCR e Grupo Comporte estão entre as operadoras que já mantêm contratos de autoprodução de energia com fornecedores no Brasil.
Serviço
- 32ª Semana de Tecnologia Metroferroviária
- De 1º a 4 de setembro de 2026, das 8h às 18h
- Nikkey Palace Hotel
- Rua Galvão Bueno, 425 – Liberdade – São Paulo