Mais gente usa transporte sobre trilhos; setor vê oportunidade para o país

A Associação Nacional dos Transportadores de Passageiros sobre Trilhos (ANPTrilhos) registrou um aumento no uso do transporte sobre trilhos no primeiro semestre de 2026. Foram transportados 1,30 bilhão de passageiros, 33,85 milhões a mais que no mesmo período de 2025, um crescimento de 2,7%. Em média, 8,86 milhões de passageiros utilizaram o sistema por dia útil.

Expansão e aumento do uso do transporte sobre trilhos

No final de junho de 2026, a malha metroferroviária urbana alcançou 1.140 quilômetros, com a entrega de três novas linhas, totalizando 15,4 quilômetros a mais e 17 estações e paradas. No entanto, a diretora-presidente da ANPTrilhos, Ana Patrizia Lira, explica que esse acréscimo não foi o principal motivo do aumento no número de usuários. Outros 15 quilômetros ainda operam em fase assistida, com horários reduzidos, e não foram contabilizados.

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  • Ana Patrizia acredita que o crescimento ocorreu porque mais pessoas passaram a usar o transporte sobre trilhos com maior frequência. O paulistano Paulo Machado, especialista em marketing, relata que aumentou o uso do metrô de uma para duas ou três vezes por semana, devido ao retorno ao trabalho presencial.

    Setor tem capacidade para receber mais passageiros

    Apesar do crescimento, o setor ainda opera abaixo da capacidade instalada. A média anual de passageiros transportados um ano antes da pandemia era de 3,26 bilhões, enquanto em 2026 está em 2,6 bilhões, segundo Ana Patrizia. A infraestrutura atual possui espaço para ampliar o número de usuários.

    Para estimular o uso e chamar a atenção do governo, a ANPTrilhos lançou em agosto a campanha “No Trilho Certo”. A diretora destaca que o transporte urbano ferroviário precisa receber o mesmo tratamento dado à educação e saúde, pois contribui para a redução de acidentes de trânsito e da poluição, que afetam a saúde pública.

    Política tarifária e participação da União

    Atualmente, a União não participa da composição tarifária do setor. Ana Patrizia ressalta a importância do conceito de “modicidade”, que exige tarifas baixas para garantir o uso do transporte. No Rio de Janeiro, por exemplo, o governo subsidiou o aumento da tarifa do metrô, evitando que o valor subisse de R$ 7,80 para R$ 8,10, enquanto o bilhete de ônibus aumentou de R$ 4,70 para R$ 5.

    A ANPTrilhos defende a criação de uma Política Nacional de Modicidade Tarifária, com fontes permanentes de custeio para aliviar o peso da tarifa para o usuário e cobrir os altos custos fixos do setor.

    Desafios e propostas para expansão do transporte sobre trilhos

    A concentração do transporte sobre trilhos no Brasil é alta, com São Paulo respondendo por 1 bilhão dos 1,30 bilhão de passageiros transportados em 2025. São Paulo e Rio de Janeiro juntos representaram 97,3% do aumento de 35,45 milhões de passageiros no primeiro semestre de 2026.

    A associação defende a criação e fortalecimento das Autoridades Metropolitanas de Mobilidade Urbana, previstas no Marco Legal do Transporte Público Coletivo (Lei nº 15.432/2026), e o investimento continuado com garantia de R$ 20 bilhões por ano para a expansão da rede metroferroviária, valor superior aos atuais R$ 8,6 bilhões.

    Segundo o Estudo Nacional de Mobilidade Urbana (ENMU), realizado pelo BNDES em parceria com o Ministério das Cidades, o Brasil precisa de mais 1,3 mil quilômetros de malha ferroviária urbana, incluindo metrô, trem urbano e VLT. Ana Patrizia destaca a urgência de tirar esses projetos do papel.

    As Autoridades Metropolitanas de Mobilidade Urbana ajudariam a descentralizar os investimentos, beneficiando conglomerados urbanos e não apenas municípios isolados.

    Atualização da lei do Vale Transporte

    A ANPTrilhos também reivindica a atualização da lei do Vale Transporte, criada em 1985, que determina que o empregador antecipe o custeio do transporte dos empregados. Naquela época, entre 45% e 50% dos trabalhadores urbanos eram registrados sob o regime CLT. Atualmente, esse percentual caiu para 38%, devido à pejotização e ao crescimento do empreendedorismo.

    Ana Patrizia defende que as empresas paguem uma taxa por empregado, independentemente do tipo de transporte utilizado, como ocorre na França. Essa medida garantiria mais recursos para o setor.

    O aumento do uso do transporte sobre trilhos e as propostas da ANPTrilhos indicam um movimento do setor em busca de maior expansão e reconhecimento, com foco em políticas públicas que garantam tarifas acessíveis e investimentos estruturais para atender a demanda crescente.

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