A mobilidade urbana no Brasil começa a entrar em uma nova fase com os semáforos inteligentes, que usam inteligência artificial para adaptar a sinalização em tempo real. A tecnologia já avança em cidades como Belo Horizonte e Curitiba e promete tornar o trânsito mais eficiente, previsível e menos poluente.
Durante décadas, a engenharia de tráfego operou com base em horários fixos, fluxos históricos e planos previamente definidos. No entanto, a cidade real muda o tempo todo. Chuva, acidentes, obras, eventos e alterações no transporte público podem alterar o trânsito em poucos minutos. Por isso, sistemas capazes de analisar dados em tempo real passam a ganhar espaço.
Como a inteligência artificial atua nos semáforos
Em vez de apenas reagir ao congestionamento depois que ele acontece, a inteligência artificial combina dados históricos e informações em tempo real para identificar padrões e estimar a evolução do fluxo. Assim, os cruzamentos conseguem ajustar os tempos dos sinais de forma mais dinâmica.
Segundo Marcos Santos, CEO da Aquarela Analytics, nem sempre é necessário trocar toda a estrutura. “Em muitos casos, não é preciso trocar todo o semáforo. A inteligência é adicionada à infraestrutura existente por meio de sensores, câmeras, controladores e uma camada de software capaz de analisar os dados e orientar a operação dos sinais. Isso permite modernizar a mobilidade sem necessariamente reconstruir toda a infraestrutura da cidade”, explica.
O especialista também destaca a mudança de lógica na operação. “A IA permite que o semáforo deixe de olhar apenas para o presente. O sistema consegue cruzar dados históricos e informações que estão acontecendo naquele momento para identificar padrões e estimar como o trânsito pode evoluir. A partir disso, os tempos dos sinais podem ser ajustados de maneira mais dinâmica”, afirma.
Resultados já observados no Brasil e no exterior
No Brasil, Belo Horizonte lançou em julho de 2026 o projeto Semáforos Inteligentes, que prevê a aplicação de IA em cerca de 50% do parque semafórico na primeira etapa. Já Curitiba utiliza semáforos com IA e tecnologia adaptativa em 44 vias da cidade.
O movimento também aparece em estudos recentes. Uma pesquisa publicada em fevereiro de 2026 na Scientific Reports desenvolveu um modelo que combina fluxo de veículos, condições meteorológicas e eventos com aprendizado por reforço para prever a dinâmica do trânsito e coordenar semáforos.
Outro estudo, publicado em 2025 na IATSS Research, avaliou sistemas de controle semafórico baseados em deep reinforcement learning. Em um dos cenários analisados, a tecnologia reduziu em 26,4% os atrasos, em 26,9% os conflitos entre veículos e em 12% as emissões de CO₂. Em testes em cruzamentos reais em Hangzhou, na China, e em Colônia, na Alemanha, os pesquisadores também identificaram reduções de 10% a 15% nos atrasos.
Na prática, esses ganhos podem significar menos tempo parado nos cruzamentos, deslocamentos mais eficientes e mais previsíveis e melhor desempenho do transporte público. Além disso, a redução de paradas tende a diminuir o consumo de combustível e a emissão de poluentes.
Para Marcos Santos, essa evolução também fortalece o conceito de Smart Cities. “Uma cidade inteligente não é simplesmente uma cidade cheia de sensores. É uma região que consegue transformar os dados coletados em decisões melhores. No trânsito, isso significa reduzir congestionamentos, melhorar a circulação do transporte público e responder mais rapidamente às mudanças que acontecem nas ruas”, completa.