Inteligência artificial avança nas montadoras e muda da linha de produção ao marketing

A inteligência artificial já deixou de ser apenas recurso de marketing e passou a ocupar funções estratégicas nas montadoras, da interação com clientes à linha de produção. Casos recentes envolvendo Volkswagen, BMW e Stellantis mostram como a tecnologia vem redesenhando a indústria automotiva em escala global.

Para Matheus Miranda, CIO da IRRAH Tech, a repercussão de ações como a recriação, com auxílio da IA, de um encontro entre Elis Regina e Maria Rita nas comemorações dos 70 anos da Volkswagen no Brasil ajuda a mostrar uma mudança mais ampla. “O que para muitos parece apenas uma ação de marketing é, na verdade, um reflexo da forma como a inteligência artificial vem sendo incorporada às operações das empresas. Trata-se de uma transformação estrutural que já impacta diferentes setores da economia, incluindo o automotivo”, afirma.

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  • Montadoras ampliam uso da IA em diferentes frentes

    Nos últimos meses, a Volkswagen anunciou o uso da tecnologia em áreas que vão de assistentes virtuais embarcados a sistemas avançados de direção automatizada. Já a BMW informou o início de projetos para usar robôs humanoides apoiados por inteligência artificial em suas linhas de produção na Europa. A Stellantis, dona de marcas como Jeep, Fiat, Peugeot e Citroën, firmou uma parceria estratégica de cinco anos com a Microsoft para desenvolver mais de uma centena de iniciativas baseadas em inteligência artificial.

    No Brasil, a tecnologia começa a ser vista menos como ferramenta isolada e mais como camada essencial da infraestrutura dos negócios. Uma pesquisa conduzida pela Meta em parceria com a Fundação Dom Cabral mostrou que 82,5% dos CEOs e executivos entrevistados classificam a IA como relevante para suas empresas. Desse total, 34,2% a consideram importante, 30% muito importante e 18,3% extremamente importante.

    Empresas buscam soluções prontas para acelerar a adoção

    A pesquisa “Inteligência Artificial Aplicada à Estratégia”, realizada com mais de 100 líderes de empresas brasileiras e multinacionais em 20 setores da economia, também aponta um paradoxo. Embora a maioria reconheça a importância estratégica da tecnologia, 43,3% destinam menos de 1% dos orçamentos para iniciativas de inteligência artificial. Além disso, 42,7% citam a falta de conhecimento especializado como principal barreira. Integração com sistemas legados, custos de implementação, segurança e conformidade também aparecem entre os desafios.

    “Esse cenário ajuda a explicar uma característica cada vez mais presente nas empresas brasileiras: muitas reconhecem o valor da inteligência artificial, mas ainda não possuem estrutura, equipe ou orçamento para desenvolver soluções proprietárias. A adoção, portanto, tende a acontecer por meio de plataformas já prontas, capazes de conectar IA aos processos de negócio sem exigir grandes estruturas internas de desenvolvimento”, diz Miranda.

    Segundo o executivo, em vez de investir anos no desenvolvimento de modelos próprios ou na formação de equipes altamente especializadas, muitas empresas optam por soluções já disponíveis no mercado. Essa estratégia acelera a adoção da tecnologia e reduz barreiras de entrada, o que permite transformar recursos antes restritos às grandes corporações em ferramentas acessíveis para operações de diferentes portes e segmentos.

    Ele cita como exemplo o GPT Maker, desenvolvido pela empresa, uma plataforma que permite criar agentes de inteligência artificial treinados com informações específicas de cada negócio. As empresas podem alimentar o sistema com documentos, manuais, políticas internas, catálogos de produtos, perguntas frequentes e bases de conhecimento próprias para que a IA responda de forma contextualizada e alinhada à realidade da organização. A solução também se integra a canais como WhatsApp, Instagram, TikTok, sites, CRMs e APIs corporativas, permitindo atuação em diferentes etapas da jornada do cliente, do atendimento inicial ao suporte e ao acompanhamento pós-venda.

    “Em vez de aplicações isoladas, como chatbots básicos ou automações restritas a tarefas repetitivas, a inteligência artificial passa a ser incorporada diretamente ao núcleo das operações. Isso significa atuar sobre fluxos inteiros, cruzar dados de diferentes áreas e influenciar decisões com base em contexto, histórico e comportamento, sem rupturas na jornada”, afirma o executivo.

    O impacto dessa transição aparece sobretudo nas áreas de atendimento e relacionamento com o cliente, tradicionalmente marcadas por processos fragmentados, múltiplos canais e alta dependência de interações humanas. “O GPT Maker, por exemplo, possibilita a criação de agentes de IA personalizados conforme as necessidades de cada negócio. Eles são capazes de aprender com as interações, adaptar a comunicação e tomar decisões alinhadas aos objetivos da empresa”, destaca o CIO.

    “Nesse estágio de maturidade, compreender a IA apenas como uma ferramenta é insuficiente. Agora, será preciso enxergá-la como um elemento fundamental da arquitetura digital, capaz de reconfigurar não apenas processos, mas a própria lógica de funcionamento do mercado”, conclui o executivo.

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