O Anuário NTU 2025-2026, lançado nesta terça-feira (11) durante o 39º Seminário Nacional NTU, em São Paulo, mostra que o transporte coletivo urbano por ônibus entrou em uma nova fase de crise no país. A publicação reúne indicadores econômicos, operacionais, regulatórios e institucionais e aponta que o modelo de financiamento do setor chegou ao limite, enquanto a migração para modais individuais já altera a mobilidade urbana brasileira.
Segundo o levantamento, o setor enfrenta queda de demanda, dificuldade para renovar a frota e aumento de custos. Além disso, o estudo afirma que a recuperação observada no pós-pandemia perdeu força e que o transporte coletivo opera em um cenário de pressão crescente sobre cidades e operadores.
Financiamento do transporte coletivo chega ao limite
O anuário destaca a sanção do Marco Legal do Transporte Público Coletivo Urbano, resultado de cerca de seis anos de articulação do setor. A legislação separa o custo real da operação da tarifa paga pelo usuário e cria bases para um modelo mais moderno e transparente. No entanto, a publicação observa que vetos presidenciais retiraram instrumentos considerados importantes para a sustentabilidade financeira do sistema, como o custeio obrigatório das gratuidades pelo poder público e incentivos à transição energética.
O estudo estima em R$ 75,7 bilhões o custo anual do sistema brasileiro. Desse total, apenas 20% contam com subsídios públicos, concentrados em poucas cidades. Os 80% restantes continuam sob responsabilidade direta dos passageiros. Dessa forma, a tarifa segue como principal fonte de financiamento de um serviço que beneficia toda a sociedade.
O levantamento também mostra que os subsídios se concentram em capitais e regiões metropolitanas e que municípios e estados ainda bancam a maior parte do custeio operacional, sem participação permanente da União.
Para Francisco Christovam, diretor-presidente da NTU, a mudança no comportamento da população exige resposta imediata. “O crescimento da motocicleta não deve ser analisado isoladamente. Ele acontece justamente quando o transporte coletivo perde competitividade. Essa migração produz impactos para toda a sociedade: mais trânsito, mais acidentes, maior consumo de energia e mais emissões. O desafio não é apenas recuperar passageiros, mas devolver ao transporte coletivo as condições para voltar a ser a principal alternativa de mobilidade urbana”, afirma.
Anuário NTU 2025-2026 aponta limites da tarifa zero
O material dedica um capítulo à expansão da tarifa zero e mostra que, em junho deste ano, 146 municípios adotavam a gratuidade universal, enquanto outros 46 mantinham catraca livre para grupos específicos ou dias determinados. Ainda assim, a adesão desacelerou, e a política segue concentrada em cidades de pequeno porte.
Pela primeira vez, o anuário registra oito casos de interrupção do benefício por dificuldades fiscais. O documento conclui que a tarifa zero não funciona sem planejamento e sem fontes estáveis de financiamento. Caso contrário, a política corre risco de descontinuidade precoce.
Segundo a NTU, a universalização da gratuidade exigiria ampliar a oferta de serviço em todas as cidades que adotaram a medida, já que a demanda cresce nesses locais. Isso elevaria de forma expressiva os custos do setor e reforçaria a necessidade de novas fontes permanentes de financiamento.
Na operação, o anuário aponta pressão contínua sobre os sistemas. A mão de obra segue como principal componente das despesas, seguida pelo combustível, que voltou a oscilar com força em 2026 após a alta internacional do petróleo. Ao mesmo tempo, a idade média da frota permanece alta, em seis anos e cinco meses, e a transição para tecnologias de baixa emissão avança lentamente.
Por fim, Christovam resume o diagnóstico da entidade. “O transporte coletivo é um serviço essencial para a economia, para a inclusão social e para a sustentabilidade das cidades. Os dados mostram que chegamos a um momento decisivo: ou construímos um novo modelo de financiamento permanente, compatível com os benefícios que o transporte público gera para toda a sociedade, ou continuaremos assistindo ao avanço da motorização individual e ao enfraquecimento dos sistemas coletivos. O Anuário oferece um diagnóstico técnico e, ao mesmo tempo, aponta caminhos para essa transformação”, conclui.
