Em tempos de guerra, crise climática e pandemia, mais de 70% dos ciclistas brasileiros usam a bicicleta cinco ou mais vezes na semana

No Brasil, 72,5% das pessoas que utilizam a bicicleta como meio de transporte ou lazer pedalam cinco ou mais vezes por semana, enquanto 28,1% a combinam com outro meio de transporte. Estas são algumas das conclusões da terceira edição da Pesquisa Nacional sobre o Perfil do Ciclista Brasileiro, organizada pela Transporte Ativo e LABMOB-UFRJ, com apoio do Itaú Unibanco. Ao todo, mais de 10 mil ciclistas foram entrevistados em 16 cidades de diferentes tamanhos, distribuídas pelas cinco regiões do país: Belém, Botucatu, Brasília, Cabo Frio, Campo Grande, Campos dos Goytacazes, Ilhabela, Maceió, Mogi das Cruzes, Niterói, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo.

A publicação ganha relevância em função do momento atual. Após dois anos de pandemia, o Brasil dá sinais de que retorna ao antigo normal, com fluxo intenso de automóveis nas ruas, transporte público precarizado e baixa infraestrutura e investimento em transportes movidos à propulsão humana. No mundo, ainda que alguns países se mostrem mais interessados em uma recuperação econômica de baixo carbono, o consumo extensivo de energia (setor no qual está a queima de combustíveis fósseis pelos carros, ônibus e caminhões) permanece como a principal causa de emissões de gases de efeito estufa.

Na esteira destes acontecimentos, a Guerra da Ucrânia, para além da gravíssima crise humanitária, social e ambiental causada pela invasão russa, anuncia o prenúncio de uma extensiva crise de petróleo, com barris já próximos de sua alta histórica. Considerando que até 3,6 bilhões de pessoas no planeta vivem em situações de extrema vulnerabilidade às mudanças climáticas, como reportou o sumário do Grupo de Trabalho II do AR6 do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas das Nações Unidas) no último dia 28/02, as bicicletas merecem mais atenção – são transportes limpos, sem qualquer emissão de poluentes, e fundamentais para a saúde individual e coletiva.

A pesquisa demonstra que, dentre os respondentes, 35,4% prefere a bicicleta pela rapidez e praticidade, enquanto 30,5% optam pela saúde e outros 23% pelo custo. Apenas 4,7% escolheu a consciência ambiental, o que sugere a necessidade de uma comunicação mais assertiva sobre a emergência climática. Já em relação aos estímulos para pedalar mais, a infraestrutura adequada foi a opção mais escolhida (55,6%), seguida por segurança no trânsito (26,8%).

Entre as capitais, algumas particularidades se destacam:

  • Em Belém, 94,8% das pessoas pedalam 5 ou mais vezes por semana, e menos de 30% utiliza a bicicleta como meio de transporte há menos de cinco anos. Ao todo, 40,2% responderam sim à pergunta “A Covid-19 aumentou deslocamentos por bicicleta?”.
  • Na capital federal, o público que pedala como meio de transporte há menos de cinco anos é muito maior: 68,5%. Isso se reflete nos 62,6% que alteraram a sua rotina por bicicleta com a Covid-19.
  • Em Maceió, pessoas que usam a bicicleta como meio de transporte para e do trabalho são predominantes: 91,5%. São maioria também aqueles que levam até 30 minutos no percurso principal (74,7%).
  • No sul do Brasil, Porto Alegre ficou um pouco acima da média nacional em relação à consciência ambiental – 5,8% dos respondentes pedalam principalmente por este motivo.
  • Fato relativamente raro entre as capitais acontece no Recife: menos de 50% dos entrevistados estão na faixa entre 25 e 34 anos.
  • No Rio de Janeiro, por sua vez, apenas 8,8% dos ciclistas têm renda entre 1 e 2 salários mínimos por mês.
  • Salvador se mostra bem diferente do Rio de Janeiro, por exemplo, na renda. 43,8% dos respondentes recebe mensalmente entre 1 e 2 salários.
  • Em São Paulo, a Covid-19, como nas outras cidades, teve impacto significativo. Para a pergunta “A Covid-19 alterou a rotina por bicicleta?”, 65,6% disse sim. Já 52% confirmaram que a pandemia aumentou o deslocamento por bicicleta.

Mais de 180 entrevistadores saíram a campo entre os meses de setembro e novembro de 2021 para coletar as respostas. No total, foram 12 meses de preparação, busca, organização, encontros, revisões de documentos e finalização para a publicação da pesquisa.