Por que não existe um Bilhete realmente Único e Universal?

Passageiros ainda precisam enfrentar filas diferentes e ter diversos cartões para viajar todos os dias.

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Bilhete Único
Foto: Reprodução
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A criação do Bilhete Único em 2004 foi uma grande conquista dos paulistanos, que puderam, finalmente, usufruir do transporte público com um pouquinho mais de comodidade e segurança, além de aproveitar benefícios como a integração.

Contudo, após 14 anos de seu lançamento, o Bilhete Único ainda não atende toda a demanda dos passageiros de transporte público de São Paulo, que notoriamente se deslocam muitos quilômetros e atravessam cidades inteiras todos os dias até chegar em seus destinos.

Um passageiro comum pode precisar de até 3 cartões diferentes se sair de Osasco e for trabalhar em São Paulo, por exemplo. Ou seja, 3 filas de recarga, 3 dores de cabeça, 3 possibilidades de perda ou furto diferentes. Pensando nisso, o que falta para termos um Bilhete Único Universal para todas as cidades da Região Metropolitana de São Paulo, ou até mesmo do estado todo?

A resposta mais óbvia, e talvez mais difundida, seja por pura disposição política. Afinal, tecnologicamente isso não é nem um pouco difícil. Integrar é tecnicamente simples, tendo em vista os sistemas embarcados ultra tecnológicos existentes nos ônibus e estações de metrô e trem.

Mas as forças políticas envolvidas nos sistemas de transporte coletivo são diversas e atuam, muitas vezes, de maneira oposta, com regras tarifárias diferentes, confundindo a cabeça do consumidor.

A constituição de 1988, no artigo 30, parágrafo V, determina que os municípios são responsáveis pela administração do sistema urbano de transportes:

Art. 30. Compete aos Municípios: […] V–organizar e prestar, diretamente ou sob regime de concessão ou permissão, os serviços públicos de interesse local, incluído o de transporte coletivo, que tem caráter essencial;

Este artigo deu autonomia para os municípios, algo que pouco tiveram ao longo da história brasileira, porém ao permitir que cada cidade administre seu próprio sistema, gerou uma falta de comunicação e integração dos sistemas em grandes aglomerados urbanos (mesmo que sejam regiões metropolitanas e, em teoria, trabalhem em conjunto).

Em São Paulo, o maior sistema público de transporte do país, os ônibus municipais são de responsabilidade da prefeitura. Os trens, metrô e ônibus intermunicipais, do governo do estado. Sem contar os sistemas municipais de cada cidade que compõe a região metropolitana.

Para Ronaldo Balassiano, professor de engenharia de transporte no Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro em entrevista à GloboNews, é necessário um administrador de todo o sistema, não só de modais específicos. Com o sistema de transportes sob uma única autoridade, pode-se trabalhar de forma integrada.

As regiões metropolitanas contam com conselhos e planos de desenvolvimento em conjunto, também estipuladas pela constituição de 1988. Mesmo assim, há pouco se fazendo no sentido de integrar toda a região num único passe, com tarifas unificadas e simplificação da gestão.

Caminhar nessa direção poderia nos dar a compra de passes pela internet e com validade em múltiplas cidades, economia de tempo e, até mesmo, receitas para os sistemas de transporte, que podem trazer de volta passageiros que trocaram o transporte público pelo individual.

Os governantes dizem que é caro fazer metrô, é caro fazer ciclovia, é caro por mais ônibus na rua. Mas temos um grande problema que pode melhorar e muito a vida das pessoas e não é tecnicamente difícil de ser realizado. Falta disposição, é verdade e, enquanto isso, continuamos com um Bilhete Único só no nome.

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