Metrô de Salvador será concluído com atraso de 12 anos e triplo do preço

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Metrô de Salvador
Estação Pirajá do metrô de Salvador será inaugurada com a presença da presidente Dilma Rousseff (Foto: Luciano da Matta/A Tarde/Folhapress)

Foram quatro temporadas de trabalho entre a construção da estação de metrô da Lapa, em 2000, e a estação Pirajá, em 2015. De lá para cá, os cabelos brancos tomaram conta da cabeça, quatro netos nasceram e José Messias, 75, continua na função de mestre de acabamento nas obras do metrô de Salvador.

“Nunca achei que fosse demorar tanto. É quase um milagre ver a obra pronta”, diz José Messias, que na última década e meia construiu fábricas, praça e casas populares.

Símbolo máximo da ineficiência em obras públicas na Bahia, a primeira linha – de 12 quilômetros – do sistema metroviário de Salvador foi concluída após 16 anos. A estação Pirajá, ponto final da obra iniciada em dezembro de 1999, será inaugurada nesta terça-feira, dia 22 de dezembro, com a presença da presidente Dilma Rousseff.

Por volta das 11h (10h em Salvador), Dilma Rousseff chegou à estação de metrô na cabine do maquinista ao local onde vai ocorrer a cerimônia.

A conclusão da linha é o fim de uma novela que inclui paralisações, mudanças de projeto e de contrato, greves e suspeita de superfaturamento. O trecho custou R$ 1,4 bilhão aos cofres públicos, mais que o triplo dos cerca de R$ 350 milhões orçados inicialmente, e deveria ter sido concluído em 2003.

“É um momento histórico concluir esta etapa da obra que sempre foi um símbolo de corrupção, superfaturamento e ineficiência”, diz o secretário estadual de Desenvolvimento Urbano, Carlos Martins, atual gestor da obra.

Capitaneada pela Prefeitura de Salvador até 2013, a obra foi tocada pelo consórcio Metrosal, formado pelas empreiteiras Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez e Siemens.

Desde então, o metrô foi repassado para o governo estadual, que relicitou a obra numa parceria público-privada, vencida pelo Grupo CCR, que contratou as mesmas Camargo Corrêa e Andrade Gutierrez.

O atual projeto prevê 42 quilômetros em duas linhas, a um custo de R$ 3,6 bilhões. A linha 1 foi inaugurada em junho do ano passado, ainda inconclusa, às vésperas das eleições. Tinha seis quilômetros e apenas cinco das oito estações previstas. O metrô de São Paulo, que começou a ser construído em 1974, tem 78 quilômetros e 67 estações.

RAIO-X DO METRÔ DE SALVADOR

1997
Projeto de metrô é formulado pela Prefeitura de Salvador, que busca financiamento.

1999
Consórcio formado por Andrade Gutierrez, Camargo Correa e Siemens assume a obra.

2000
Obras civis são iniciadas, com previsão de conclusão da linha 1 em 2003.

2005
Projeto da linha 1 é reduzido a 6 km e ganha apelido de metrô.

2006
Tribunal de Contas da União detecta irregularidades como ausência de planilhas orçamentárias da obra.

2008
Trens do metrô chegam a Salvador. Ficariam dois anos guardados num galpão ao custo de R$ 80 mil por mês.

2009
Obra entra na mira da operação Castelo de Areia, posteriormente anulada.

2012
Tribunal de Contas da União detecta sobrepreço de R$ 166 milhões, em valores da época, nas obras.

2013
Gestão do metrô é repassada para governo estadual. Obra é assumida pelo Grupo CCR.

2014
Linha do metrô começa a funcionar em fase de testes.

2015
Conclusão do projeto inicial da linha 1.

Início das obras: 1999
Extensão: 12 km
Número de estações: 8
Total investido: R$ 1 bilhão

PERCALÇOS

As querelas judiciais, a falta de repasses federais e as alterações no projeto são apontadas pelos gestores como fatores principais para o atraso e o aumento de custo. Só a construção de um elevado não previsto no projeto original resultou em gasto adicional de R$ 36 milhões.

Também houve paralisações determinadas pelo Tribunal de Contas da União, que em 2012 detectou superfaturamento estimado em R$ 166 milhões (R$ 200 milhões em valores atualizados).

Em 2010, o Ministério Público Federal já havia encontrado graves falhas, como a ausência de planilhas orçamentárias e até a suspeita de existência de um “consórcio oculto” por trás da obra.

Uma ação de improbidade denunciou as empresas Andrade Gutierrez, Camargo Corrêa, Odebrecht, OAS, Queiroz Galvão e Constran, mais 11 servidores municipais e federais, por irregularidades no processo licitatório e na execução das obras. Suspensa, a ação foi retomada este ano pela Justiça Federal da Bahia.

OUTRO LADO

Odebrecht negou que tenha participado de consórcio oculto. Sobre a ação de improbidade, disse que as decisões judiciais ainda estão pendentes de recursos interpostos pelas partes.

A Camargo Corrêa contesta as alegações de irregularidades apontadas pelo Ministério Público Federal no contrato do metrô. A Andrade Gutierrez, a Constran e a Queiroz Galvão não quiseram comentar as investigações. A OAS não se manifestou.

Prefeito responsável pelo início da obra, o deputado federal Antonio Imbassahy diz que a evolução foi prejudicada pela retenção de recursos federais de 2000 a 2004. Ele nega problemas no projeto e credita o aumento de custos às constantes paralisações e retomadas.

O ex-prefeito João Henrique Carneiro, que governou Salvador de 2005 a 2012, não se manifestou.

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