A Prefeitura de São Paulo gastou cerca de R$ 6,18 bilhões com subsídios ao sistema de ônibus nos nove primeiros meses de 2026. Esse valor representa praticamente todo o orçamento previsto para o ano, que é de pouco mais de R$ 6,22 bilhões. Os dados foram divulgados pela Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana e pela SPTrans, empresa responsável pela gestão do transporte público por ônibus na capital paulista.
Gastos com subsídios e redução no número de passageiros nos ônibus
O subsídio cobre a diferença entre a arrecadação obtida com as tarifas e os custos de operação do sistema, incluindo despesas com diesel, pneus e mão de obra. Segundo a administração municipal, o recurso também mantém gratuidades, a integração gratuita entre ônibus e descontos nas tarifas dos sistemas de trens e metrô.
A tarifa de ônibus em São Paulo é de R$ 5,30. Sem o subsídio, a Prefeitura estima que o custo para manter o sistema chegaria a R$ 13,49 em 2026, contra R$ 11,78 em 2025.
Agosto foi o mês com maior volume de recursos destinados ao subsídio em 2026, com quase R$ 810 milhões, seguido por junho, com aproximadamente R$ 794 milhões. Em 2025, a compensação tarifária alcançou R$ 7,4 bilhões corrigidos, o maior valor até então. Para 2027, a previsão orçamentária é de R$ 7,1 bilhões.
O aumento dos gastos ocorre simultaneamente à redução no número de passageiros. Em setembro de 2026, foram registrados cerca de 169 milhões de embarques nos ônibus municipais, uma queda de aproximadamente 10% em relação aos 186,1 milhões registrados no mesmo mês de 2025. Comparado a setembro de 2019, antes da pandemia, a redução chega a 23,6%, com cerca de 52,1 milhões de embarques a menos.
Além disso, a quantidade de ônibus disponíveis também diminuiu. Em setembro de 2026, a SPTrans registrou 13,8 mil coletivos disponíveis, contra 14 mil em 2019.
Discussão sobre o modelo de subsídio aos ônibus
Especialistas passaram a discutir a relação entre o volume de subsídios e a redução da demanda no sistema paulistano. Entre as propostas está a melhoria das condições de circulação dos ônibus, com redução do tempo de espera nos pontos e terminais, além do aumento da velocidade nos corredores e faixas exclusivas.
Outra avaliação aponta problemas na forma atual de direcionamento dos subsídios. Uma alternativa sugerida é concentrar parte dos benefícios diretamente nos passageiros conforme a necessidade de cada grupo. Nesse modelo, pessoas inscritas no Cadastro Único poderiam receber créditos específicos para utilizar no transporte, com limite de gastos, semelhante ao vale-transporte, em que a participação do trabalhador é limitada a 6% do salário.
Também foi proposta uma alteração na concessão do passe estudantil. Em vez de repassar o benefício integralmente às empresas, o valor poderia ser depositado diretamente no bilhete do estudante, permitindo identificar quanto os passageiros efetivamente pagariam pelo transporte sem considerar um subsídio generalizado.
Possíveis mudanças no financiamento dos subsídios
Outra avaliação defende a manutenção dos subsídios ao transporte coletivo, mas com mudanças na aplicação e controle dos recursos. Entre as medidas estão a redução dos custos operacionais, o aumento da velocidade dos ônibus por meio de corredores exclusivos, melhorias na gestão dos contratos e a criação de fontes complementares de financiamento.
Essas fontes incluem mecanismos de captura da valorização imobiliária, cobrança ou taxação relacionada ao estacionamento e medidas voltadas ao uso mais intensivo do automóvel. A discussão parte do entendimento de que o transporte coletivo gera efeitos que ultrapassam os passageiros que utilizam diretamente os ônibus.
Aumento dos subsídios ao transporte coletivo no Brasil
A discussão sobre os subsídios não se restringe a São Paulo. Dados do Anuário 2025-2026 da Associação Nacional de Transportes Urbanos (NTU) indicam que 440 cidades brasileiras utilizam algum tipo de subsídio para custear o transporte coletivo, um crescimento de quase 10% em um ano. Em 2024, eram 404 municípios, e antes da pandemia, 175 cidades adotavam algum mecanismo de subsídio.
Os subsídios concentram-se em capitais e regiões metropolitanas, financiados principalmente por municípios e estados, sem participação permanente da União no custeio operacional. A discussão sobre o financiamento considera ainda os efeitos do transporte coletivo sobre toda a cidade, como redução de congestionamentos, emissões, acidentes e ampliação do acesso da população ao trabalho, educação e serviços.
Em São Paulo, o cenário atual reúne aumento dos recursos destinados ao sistema, redução dos embarques em relação ao período pré-pandemia e debate sobre mudanças no modelo de financiamento e distribuição dos subsídios.