Quando o carro deu problema, muitas mulheres 50+ passaram a buscar mais do que saber dirigir: elas querem entender mecânica básica para ganhar autonomia e se virar sozinhas no dia a dia.
Mecânica básica e autonomia ao volante
Segundo levantamento da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet), com base em dados da Senatran e do último Censo Demográfico, o Brasil tem 5,6 milhões de mulheres habilitadas entre 51 e 70 anos. O número supera, em diversas regiões do país, o de condutoras entre 41 e 50 anos, estimado em 5,5 milhões.
“Entender o carro virou uma forma de reduzir a dependência e tomar decisões com mais segurança”, explica Vittória Gabriela, da comunidade Dona Meu Destino, voltada à educação automotiva feminina e responsável por oficinas práticas e conteúdos sobre manutenção e funcionamento de veículos.
Criada a partir da experiência de ter enfrentado problemas com a manutenção do próprio carro, a iniciativa cresceu e hoje reúne mais de 890 mil mulheres nas redes sociais. Além disso, os conteúdos já ultrapassaram 4 milhões de visualizações, e mais de 3.500 mulheres aguardam na lista de espera para participar das oficinas presenciais sobre mecânica básica.
“Houve um aumento na participação de mulheres maduras nas oficinas que promovemos. É um movimento que vai além da curiosidade por motores. Reflete uma mudança de papel. São viúvas que passaram a resolver sozinhas questões antes compartilhadas. Mães que se tornaram a principal referência financeira da família. Mulheres que chegaram aos 50 ou 60 anos acumulando experiências suficientes para perceber que depender de alguém para explicar um orçamento mecânico já não faz sentido”, destaca.
Mais lares chefiados por mulheres impulsionam a mudança
Dados do Censo 2022, divulgados pelo IBGE em 2024, mostram que 49,1% dos lares brasileiros já têm mulheres como responsáveis. Em 2010, esse percentual era de 38,7%. Na prática, cerca de 36 milhões de brasileiras estão à frente das decisões financeiras e administrativas de suas casas, o que ajuda a explicar a busca crescente por conhecimento em manutenção automotiva.
Essa mudança aparece em decisões cotidianas que raramente ganham destaque nas estatísticas, como escolher uma oficina, questionar a troca de peças, entender uma revisão ou identificar quando um orçamento faz sentido.
Se antes a maioria das participantes chegava motivada por panes, prejuízos ou atendimentos considerados inadequados, hoje cresce a procura preventiva. “No início, muitas chegavam depois de um problema, um mau atendimento ou um prejuízo. Hoje, vemos cada vez mais mulheres buscando aprender por escolha, antes que qualquer situação aconteça. É uma mudança do ‘preciso me virar’ para o ‘quero ter controle’”, afirma Vittória.
Ela diz que a maioria das mulheres chega sem conhecimento prévio sobre o carro, mas isso não impede o aprendizado. “O workshop foi desenhado para quem está começando do zero. Não existe pergunta boba. A única pergunta ruim é a que a gente deixa de fazer por medo”, diz.
Segundo Vittória, o aprendizado não transforma essas mulheres em mecânicas, mas muda a forma como elas ocupam esse espaço. “O conhecimento evita situações comuns: desde pagar por serviços desnecessários até ignorar sinais simples que podem se transformar em problemas maiores. E quase todo prejuízo alto começa com algo pequeno que foi ignorado por falta de informação”, explica.
Ela conclui: “Para quem quer começar, o caminho não precisa ser técnico: entender itens básicos, como nível de óleo, desgaste de pneus e funcionamento de revisões periódicas, já é um primeiro passo para transformar o carro de um ponto de dúvida em uma decisão consciente”.
Agora, a comunidade pretende ampliar as capacitações, aumentar o número de turmas de mecânica básica e levar os encontros para novas regiões do país. Capitais como Rio de Janeiro, Salvador e Belo Horizonte já estão no radar. Além disso, o grupo trabalha em versões online dos cursos para ampliar o acesso e democratizar o conhecimento sobre manutenção automotiva.