O Brasil conta com cerca de 405 mil pessoas que trabalham como motociclistas de aplicativos, atuando no transporte de passageiros e na entrega de comida e produtos. Desses, apenas 79 mil possuem cobertura previdenciária, o que representa 19,4%, ou seja, um em cada cinco.
Previdência e perfil dos motociclistas
Para efeito de comparação, o índice de cobertura previdenciária entre todas as pessoas ocupadas no setor privado no país é de 62,4%. Considerando todos os motociclistas do país, sejam plataformizados ou não, o índice de cobertura sobe para 31%. Ao contribuir para institutos de previdência, o trabalhador garante benefícios como aposentadoria, auxílio por incapacidade e pensão por morte.
Os dados fazem parte de um módulo especial sobre trabalho por meio de plataformas digitais da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, divulgada em 4 de setembro de 2026 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A pesquisa coletou informações em 2025 para medir o contingente de trabalhadores por aplicativo no país, classificados como “plataformizados”.
O analista da pesquisa, Gustavo Geaquinto Fontes, destaca que a pequena parcela dos condutores plataformizados protegidos pela previdência contrasta com o perfil da atividade. “Eles podem estar expostos a acidentes e outros riscos relacionados à ocupação”, afirma.
Motociclistas plataformizados
O levantamento do IBGE aponta que, de 2024 para 2025, houve aumento de 15,4% no número de motociclistas plataformizados. No período de 2022, primeiro ano da pesquisa, até 2025, o número praticamente dobrou, passando de 211 mil para 405 mil pessoas. A pesquisa é considerada experimental pelo IBGE, estando em fase de teste e avaliação. Em 2023, não houve coleta de informações.
Ganhos e jornada de trabalho
Os motociclistas de aplicativos receberam, em média, R$ 2.221 mensais, valor que corresponde ao que foi efetivamente “retirado”, descontados gastos como combustível, conforme explica o IBGE. A jornada semanal dos motociclistas plataformizados foi de 44,9 horas, enquanto os não relacionados a aplicativos trabalhavam 41,1 horas.
O rendimento médio por hora dos plataformizados foi de R$ 11,4, 12,9% superior ao rendimento dos não plataformizados, que era de R$ 10,1.
Dados sobre motoristas de aplicativos
A Pnad também trouxe dados sobre motoristas de aplicativos. Em 2025, esse grupo somava 905 mil pessoas, com crescimento de 9,8% em relação ao ano anterior. Em três anos, o aumento foi de 26%, saindo de 718 mil para 905 mil.
Entre os motoristas de aplicativos, apenas 25,5% tinham cobertura previdenciária. Considerando todos os motoristas do país, plataformizados ou não, o índice de cobertura é de 43,8%.
Diferentemente dos motociclistas, os motoristas de app tinham rendimento por hora inferior aos dos não plataformizados. Em 2025, os motoristas ligados a plataformas trabalhavam 45,9 horas semanais e recebiam R$ 14,4 por hora. Já os não plataformizados trabalhavam 40,4 horas semanais e recebiam R$ 16 por hora.
A remuneração mensal dos motoristas de aplicativo foi de R$ 2.873, valor 2,4% maior que o dos não plataformizados.
Posicionamento das plataformas
Após a divulgação da pesquisa, a Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec), que reúne empresas de tecnologia prestadoras de serviços, reconheceu a importância do avanço em pesquisas sobre o trabalho intermediado por plataformas. Contudo, a associação apontou limitações no estudo do IBGE, classificado como experimental.
A Amobitec afirmou que a pesquisa apresenta deficiências metodológicas para retratar fielmente esse universo. Citou inconsistências nos resultados, como a indicação de que menos de 10% dos trabalhadores plataformizados têm essa atividade como secundária, enquanto 17% dos que têm a ocupação principal nos aplicativos apontam que o maior motivo para escolher esse trabalho é complementar a renda.
A entidade utilizou pesquisas do Instituto Datafolha e do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), realizadas em períodos diferentes da do IBGE, para apontar dados divergentes.
Segundo a Amobitec, a metodologia do IBGE para analisar os ganhos com aplicativos não parece suficiente para um retrato preciso dos rendimentos desses profissionais. A associação se colocou à disposição para colaborar no aprimoramento da pesquisa e defende uma regulamentação equilibrada para o trabalho intermediado por aplicativos, que permita proteção efetiva para motoristas e entregadores, ao mesmo tempo que contemple a flexibilidade e diversidade dos modelos de negócios.
Entre as associadas da Amobitec estão 99, Alibaba, Amazon, Buser, iFood, Flixbus, Lalamove, Shein, Uber e Zé Delivery.
