Veículos elétricos impulsionam ofensiva chinesa no Brasil

Veículos elétricos abriram espaço para uma nova ofensiva chinesa no Brasil, que passou a ocupar posição estratégica na expansão global da indústria automotiva da China. Entre janeiro e maio, o país se tornou o maior comprador mundial de veículos produzidos pela China, com US$ 5,2 bilhões em importações, alta de 146,9% na comparação com o mesmo período do ano passado.

Mais do que um avanço comercial, o movimento mostra uma mudança no equilíbrio de forças do mercado automotivo. A chegada das marcas chinesas ganhou impulso justamente no momento em que o setor atravessa sua transformação mais profunda em décadas: a migração dos motores a combustão para modelos elétricos e híbridos.

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  • China amplia presença com veículos eletrificados

    Dos US$ 5,2 bilhões importados pelo Brasil no período, US$ 4,5 bilhões vieram de modelos eletrificados. Além disso, a participação desses veículos nas compras brasileiras de automóveis chineses saltou de 33% em 2021 para 87% em 2025, o que reflete a vantagem competitiva construída pela China em baterias, tecnologia e escala produtiva.

    O avanço também aparece no mercado interno. No acumulado do ano, os veículos eletrificados somam 167.444 unidades vendidas e já representam 15,2% das vendas de veículos leves no país, crescimento expressivo em um segmento historicamente dominado por modelos a combustão.

    A mudança começa a se espalhar também por novos ecossistemas de mobilidade. Um levantamento da Machine, com dados de 2024 a 2026, mostra que a participação de veículos eletrificados nas frotas de aplicativos subiu de pouco mais de 2% para mais de 6%. Entre os novos carros incorporados por motoristas, essa fatia já supera 20%.

    Embora ainda represente uma parcela minoritária da frota, o movimento indica que a eletrificação avança para além do consumidor tradicional e tende a ganhar escala. “A aceleração da eletrificação exige que aplicativos e motoristas se adaptem não apenas à tecnologia, mas também a novos modelos de operação e custos, que envolvem manutenção, recarga e gestão de frota. A transformação, portanto, envolve tanto a oferta de veículos quanto a adaptação da operação e do mercado de trabalho associado”, afirma Júlia Camossa, estatística responsável pela plataforma.

    Marcas chinesas aceleram plano industrial no país

    Entre os modelos totalmente elétricos, a liderança está concentrada nas marcas chinesas. A BYD aparece na frente do segmento, com o Dolphin Mini como o carro elétrico mais vendido em maio, seguido pelo Dolphin e pelo Geely EX2. O desempenho reforça a estratégia das fabricantes chinesas de combinar preços mais competitivos, maior escala produtiva e oferta diversificada para acelerar a adoção desses veículos.

    Parte do crescimento recente também foi influenciada pela antecipação de compras antes do aumento das tarifas brasileiras de importação para veículos eletrificados. No entanto, o movimento não parece restrito a uma janela tributária. As fabricantes chinesas passaram a enxergar o Brasil como mercado estratégico de longo prazo.

    Essa aposta já começa a aparecer na produção local. Pelo menos oito marcas chinesas anunciaram planos de fabricar veículos no país, seja com fábricas próprias ou por meio de parcerias com empresas já instaladas. Assim, a disputa deixa de se limitar às importações e passa a envolver a construção de uma presença industrial.

    Durante décadas dominado por montadoras americanas, europeias e japonesas, o mercado brasileiro começa a incorporar novos protagonistas. A China transformou sua liderança na cadeia global de veículos elétricos em plataforma de expansão internacional, e o Brasil surge como um dos principais mercados dessa estratégia.

    O impacto mais relevante, porém, está na mudança dos critérios de competitividade. No novo ciclo da indústria automotiva, tecnologia, custo, infraestrutura e capacidade de adaptação passam a pesar tanto quanto tradição e histórico de mercado. A questão agora não é apenas quantos carros chineses chegarão ao Brasil, mas qual papel essas marcas ocuparão na próxima geração da mobilidade.

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