Pesquisa revela impactos da pandemia na mobilidade em grandes cidades da América Latina

Resultados de levantamento organizado pelo Centro de Excelência BRT+ com apoio do WRI Brasil mostram como a Covid-19 modificou a mobilidade e a rotina das pessoas em Belo Horizonte, Porto Alegre, Rio de Janeiro, São Paulo, Bogotá, Buenos Aires, Lima, Quito e Santiago. Nova etapa vai aprofundar conhecimento sobre impactos

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Passageiro Metrô
Foto de Denys Argyriou por Unsplash

Como a pandemia de Covid-19 afetou a mobilidade urbana e o uso dos modos de transporte? Como se sentiram as pessoas que adotaram o trabalho remoto? Estas são algumas das perguntas feitas em levantamento organizado pelo Centro de Excelência BRT+ com apoio do WRI Brasil em nove cidades latino-americanas: Belo Horizonte, Porto Alegre, Rio de Janeiro, São Paulo, Bogotá, Buenos Aires, Lima, Quito e Santiago.

Nessas capitais, a pesquisa mostrou, por exemplo, que a maioria das pessoas passou a usar menos o transporte coletivo. Bicicleta e caminhada diminuíram no Brasil, mas aumentaram em Buenos Aires e Bogotá, cidades que investiram em infraestrutura para a mobilidade ativa durante a pandemia.

A diminuição no uso do transporte coletivo relatada em todas as cidades foi drástica, algo que está gerando consequências econômicas graves para vários dos sistemas. Nas nove cidades, mais de 50% dos participantes afirmaram ter reduzido a frequência com que utilizam o transporte coletivo, chegando ao máximo de 82% em São Paulo. Esse percentual foi de 78% no Rio de Janeiro, 66% em Porto Alegre e 63% em Belo Horizonte.

A preocupação com a transmissão de Covid-19 foi uma constante. Em todas as cidades pesquisadas, mais de 60% dos respondentes afirmaram que estavam “extremamente preocupados” ou “muito preocupados” com a higiene no transporte público. Nas cidades brasileiras, foram 76% dos paulistanos e cariocas, 75% dos belo-horizontinos e 69% dos porto-alegrenses.

Gráfico Pandemia

Outro motivo foi o trabalho remoto. Próxima de zero no momento anterior à pandemia, a realização da atividade principal (em geral, trabalho ou estudo) de casa se tornou a parcela mais significativa da distribuição modal entre os entrevistados de todas as cidades, sendo inclusive superior a 50% em quase todas – Lima (39%) e Quito (33%), foram as únicas exceções.

São Paulo (72%) e Buenos Aires (69%) são as cidades onde os participantes da pesquisa mais realizavam a atividade principal de casa. Rio de Janeiro (64%), Belo Horizonte (60%) e Porto Alegre (55%) também mostraram resultados expressivos. Os gráficos a seguir mostram como mudou a proporção de cada modo em comparação a antes da pandemia.

Gráfico Cidades

Mas quando o deslocamento era necessário, o meio de transporte escolhido mudou. Enquanto nas cidades brasileiras e em Santiago uma maioria dos entrevistados relatou ter diminuído o número de deslocamentos a pé e por bicicleta, outras cidades latino-americanas tiveram aumentos superiores a 30% no uso de pelo menos um destes modos.

Estes aumentos podem estar associados ao incentivo que algumas cidades deram a esses modos de transporte, que são os mais seguros em um momento de pandemia, ao construir ciclovias temporárias (Bogotá, Buenos Aires, Lima e Quito adotaram esta prática) ou implementar alargamentos em calçadas, entre outras medidas.

A redução dos deslocamentos a pé foi de 41% em Porto Alegre, 40% em São Paulo, 36% no Rio de Janeiro e 35% em Belo Horizonte. No caso do uso da bicicleta, ele caiu 22% e Porto Alegre, 18% em São Paulo, 14% no Rio de Janeiro e 9% em Belo Horizonte.

Trabalho remoto veio para ficar

Entre os aspectos investigados na pesquisa está a percepção de produtividade no trabalho de casa em comparação com o presencial: considerando todas as pessoas entrevistadas, a maioria considera que não houve alterações na produtividade, e nos casos de cidades como Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Bogotá, as pessoas se consideram mais produtivas de casa. Já em Porto Alegre, São Paulo e Rio de Janeiro a maioria se disse um pouco menos produtiva.

Do total de respondentes das nove cidades, quando perguntados sobre quantos dias trabalhariam de casa no futuro (com a crise sanitária superada) caso pudessem escolher, em média, menos de 5% desejariam voltar ao trabalho totalmente presencial, 30% gostariam de trabalhar 3 dias de casa e 25% optariam pelo trabalho totalmente remoto. Bogotá (38%), Lima (30%) e Belo Horizonte (28%) foram as cidades com as maiores proporções de pessoas que escolheram esta última opção.

Por outro lado, um olhar mais apurado sobre a renda dos participantes do questionário revela uma realidade desigual: embora a amostra das cidades brasileiras tenha sido pequena para alguns dos estratos de renda, os resultados indicam que a população mais vulnerável continuou se deslocando mais durante a pandemia, consequentemente ficando mais exposta ao vírus.

Sobre a pesquisa

A pesquisa Impactos da Pandemia da Covid-19 sobre a Mobilidade Urbana foi organizada pelo Centro de Excelência BRT+, da PUC Chile, de Santiago, e teve apoio do WRI Brasil para o levantamento nas cidades brasileiras. Ela foi realizada de maneira remota (internet) com 5924 pessoas em Belo Horizonte, Porto Alegre, Rio de Janeiro, São Paulo, Bogotá, Buenos Aires, Lima, Quito e Santiago.

Uma segunda etapa da pesquisa terá início em 28 de julho, visando ampliar ainda mais os dados já obtidos para analisar como mobilidade urbana está se transformando em função dos impactos da Covid-19 na e das mudanças na jornada de trabalho. Tais respostas são vitais para embasar políticas públicas e também planejar a retomada pós-pandemia.

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