Lab de Comunicação para Mobilidade aborda sustentabilidade no espaço urbano

Especialistas se reúnem para discutir mudanças urgentes para a mobilidade urbana dos grandes centros; O transporte coletivo, de maneira geral, que já vinha passando por uma grande crise de forma estrutural nas cidades, foi muito agravado com a pandemia, diz Cristina Albuquerque

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Dongcheng Qu China

Foto de zhang kaiyv no Pexels

O tema Pandemia e Sustentabilidade: Urge a mudança na mobilidade provocou questionamentos que foram analisados durante o segundo encontro do Lab de Comunicação para a Mobilidade, iniciativa da Aberje que existe desde 2016 e que conta com o patrocínio da General Motors (GM). O evento foi realizado de forma online no dia 26 de julho.

Participaram a gerente de Mobilidade Urbana do WRI Brasil, Cristina Albuquerque; o médico patologista e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), Paulo Saldiva; o co-fundador da Beepbeep Mobilidade, Fabrício Braz; e o responsável pela mobilidade elétrica na Enel X, Paulo Maisonnave. O debate foi mediado pelo jornalista Fernando Calmon, consultor técnico do mercado automobilístico e de comunicação.

Ao iniciar sua fala, Cristina Albuquerque, da WRI Brasil – instituto de pesquisa que transforma grandes ideias em ações para promover a proteção do meio ambiente -, falou sobre a visão da empresa sobre as oportunidades que a pandemia trouxe para a mobilidade das grandes cidades. “O nosso sistema de transporte coletivo, de maneira geral, que já vinha passando por uma grande crise de forma estrutural nas cidades, com a perda de passageiros, com o aumento da competitividade diante dos demais modos de transporte que têm surgido, foi muito agravado com a pandemia”, afirmou.

Por outro lado, prossegue a executiva, a pandemia ajudou a abrir os olhos para algumas oportunidades de soluções no que se refere à questões de mobilidade sustentável. “São ações que podem ser utilizadas para a melhoria da mobilidade sustentável, como políticas de escalonamento de horários das principais atividades econômicas para diminuir a quantidade de pessoas que se deslocam no mesmo horário; como a implementação de soluções de transporte ativo, de conexões de ciclovia, de corredores de ônibus, que fomentaram, não apenas em cidades do Brasil mas também em nível internacional, o uso do espaço viário para os modos mais sustentáveis; o home office também foi acelerado pela pandemia, assim como a tecnologia elétrica, uma solução cada vez mais madura, que vem fomentando a transição da frota de transporte coletivo limpo, que diminui muito os impactos ambientais nas nossas cidades”, complementou.

Fabrício Braz, da Beepbeep – startup de compartilhamento de carros 100% elétricos -, conta que, pelo fato de as pessoas utilizarem menos o carro durante a pandemia, não sentiram a necessidade de possuir um automóvel em casa. “Percebemos esse movimento das pessoas não só pensando em deixar de ter um bem quanto na sustentabilidade tendo um serviço que pode usar com facilidade em outros locais. Em um ano e meio de serviço, tiramos mais de 60 toneladas de carbono da atmosfera. Acreditamos que a mobilidade elétrica ocorrerá primeiro no setor público, através do transporte coletivo, e queremos estar juntos com eles para ajudar as pessoas a saírem de um modal para outro”.

O médico Paulo Saldiva considera a questão da mobilidade um problema que tem a ver com a saúde, por ser um importante determinante da discrepância em relação ao adoecimento e ao risco de morte em função da distância dos empregos. “Se você computar o número de horas perdidas por falta de mobilidade, a redução dos custos da poluição do ar com mobilidade sustentável e colocar isso dentro da planilha de custos do transporte, você entende que não há justificativa para não aplicar a mobilidade sustentável de baixa emissão e de alta eficiência”, acentua.

“O problema da mobilidade não se resolve na mobilidade em si, envolve a geração de empregos, a reurbanização, o uso e ocupação do solo etc. Temos ótimos planos diretores que nunca são implementados, temos grandes intenções mas pouca aplicação porque a gente acaba se rendendo a um parlamento que pulverizou a direção da cidade”, argumentou, acrescentando que a mobilidade também passa pela questão do conglomerado de municípios. “A pandemia aumentou o contraste na cidade. O mapa da cidade mostra que o risco de morrer de Covid-19 varia quase oito vezes no território. É uma situação onde o código de endereçamento postal é mais importante que o código genético e isso é determinado, em grande parte, pela dificuldade de acesso ao trabalho e por condições de transporte basicamente pouco condizentes com a dignidade humana. Mobilidade urbana é uma questão de saúde e também de direitos fundamentais das pessoas”.

Paulo Maisonnave, da Enel X, defende a eletrificação no transporte público por ser essencial para a transição energética, sendo mais eficiente e mais saudável. “O trânsito impacta na grande maioria das doenças na população. A motorização é seis vezes mais eficiente que a atual. Infelizmente a gente não tinha a tecnologia até pouco tempo atrás para fazer essa transição energética na frota leve de veículos e também na frota sobre rodas porque a bateria ainda era inviável econômica e tecnicamente falando. Agora já temos essa evolução: temos eficiência, otimização, saúde. E no Brasil temos uma matriz majoritariamente renovável, com mais de 80% gerando a partir de hídrica, solar e eólica e com uma expansão prevista do ponto de vista renovável também. A mobilidade elétrica faz todo sentido, principalmente nas mega cidades”, ressaltou.

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