Home Office é essencial para mobilidade urbana e Anatel deve contribuir

Anúncio de empresas as respeito de cobrança de pacotes de internet com limite de dados pode desestimular prática no mercado de trabalho que ajuda na redução dos congestionamentos

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Foto: Reprodução

Corredores de ônibus de alta velocidade e eficiência, redes de metrô cada vez mais modernas e integradas com outros modais, políticas que desonerem a atividade do transporte público para fazer com que as tarifas sejam mais atrativas estimulando a migração do carro para os deslocamentos coletivos. Ciclovias implantadas com critérios técnicos levando em conta o perfil dos deslocamentos, calçadas seguras e gestão competente de tráfego.

Todas estas ações são essenciais para melhorar a mobilidade urbana e consequentemente a qualidade de vida das pessoas, já que a forma como elas se deslocam resultam nas maneiras pelas quais os cidadãos vivem, se relacionam, aproveitam o tempo e até mesmo como respiram.

Mas por incrível que pareça, todas essas ações juntas, entretanto, são insuficientes porque não basta apenas melhorar os deslocamentos. É necessário sim reduzir os deslocamentos.

Quem diz isso são técnicos e especialistas nacionais e internacionais. O Conselho Estadual de Meio Ambiente de São Paulo, no Plano de Controle de Poluição Veicular 2014-2016, apontou com base em estudos de diversas instituições que é necessário reduzir em pelo menos 26%, as viagens de carro na capital e nos municípios da Grande São Paulo. Para que comece haver uma melhoria na qualidade do ar, seria necessário eliminar 3,3 milhões de viagens diárias de um total de 12,6 milhões.

A Organização das Nações Unidas divulgou que atualmente 54% da população mundial vivem em áreas urbanas. Este número pode chegar a 66% em 2050, com uma população mundial urbana superando 6 bilhões de pessoas.

Os deslocamentos intensos fazem parte da característica da vida urbana. É muita gente indo pra lá e pra cá e a ONU recomenda como ideal até 2050 reduzir em até 50% as necessidades do total de deslocamentos nas cidades.

Os caminhos para isso são bem claros e passam por uma reestruturação das relações de trabalho e uma reorganização da ocupação do espaço urbano.

Assim é necessário incentivar a criação de mais polos regionais de geração de emprego e renda, com atividades como pequenas fábricas, escritórios e comércios dentro de núcleos de bairros para que a pessoa não precise cruzar a cidade inteira para trabalhar ou até mesmo cruzar várias cidades para chegar ao emprego.

Os serviços, como hospitais, emissões de documentos, escolas e faculdades devem ser mais descentralizados também do ponto de vista de oferta geográfica.

Outro caminho é a flexibilização dos horários de trabalho. Não há necessidade de todo mundo entrar às 8 da manhã e todo mundo sair às 5 da tarde. Existem atividades que podem ter seu início às 9h, 10h, meio-dia…

Também se mostra fundamental a necessidade de ampliação da prática do home-office. Trabalhar em casa atualmente não é apenas uma solução para que a pessoa tenha uma vida mais cômoda. Num país cuja taxa de desemprego em março se aproximou de 10 milhões de pessoas, estimular a realização de atividades profissionais em casa não deixa de ter um aspecto social importantíssimo.

O home-office pode ter mais impacto no trânsito que na lotação dos transportes públicos. Isso porque, sem nenhum tipo de preconceito ou discurso de divisão social, as atividades profissionais que podem ser exercidas neste sistema são feitas por pessoas que proporcionalmente usam mais o carro para se deslocar.

Além de desafogar ônibus, metrô e vias, trabalhar em casa também reduz os custos das empresas empregadoras. Em vez de pagar muito pelo deslocamento de seu funcionário, a empresa tem gastos menores permitindo com que seu trabalhador vá até o local físico da companhia apenas algumas vezes por semana ou até por mês, sem prejudicar a prestação de serviços. Muito pelo contrário, se o home-office for praticado com seriedade, o índice de produtividade do trabalhador pode ter aumento entre 20% e 40%.

O instituto americano Gallup revelou em um levantamento em 2015, nos Estados Unidos, que funcionários em sistema o home-office, mesmo que parcial, dedicam quatro horas semanais a mais de trabalho do que quem cumpre jornada no escritório.

E não há mistério para entender essa lógica. É o tempo que o funcionário ficaria preso dentro do carro, no ônibus, no metrô e até mesmo pedalando na ciclovia.

Já a consultoria americana Global Workplace Analytics mostrou que nos Estados Unidos a economia com a mudança chega a 11 000 dólares por ano por funcionário, levando em conta os fatos de as empresas com o home-office precisarem ocupar prédios menores, usarem menos energia elétrica, água e pagarem menos vale-transporte.

Hoje nos Estados Unidos, em torno de 40% da mão-de-obra de trabalho já atuam, mesmo que parcialmente, em home-office.

A questão também envolve aspectos culturais. O empresariado brasileiro parece ainda não estar afinado com as possibilidades que as tecnologias que já estão no mercado há algum tempo podem oferecer. Além disso, ainda por parte da sociedade, existe a imagem de que quem trabalha em casa trabalha menos ou que é descompromissado, preguiçoso. Mas os números reais mostram que é justamente o contrário. Para a sociedade brasileira, trabalhar ainda significa pegar o trem lotado às 7 horas da manhã e voltar no mesmo trem lotado, só que mais sujo, às 5 horas da tarde.

Para que o home-office seja concretizado, atualmente é necessário o acesso mais barato e facilitado à internet.

No entanto, no Brasil, mesmo diante de todas essas necessidades sociais, econômicas e de mobilidade urbana que podem ser atendidas parcialmente pelo home-office, pode dar um grande passo para trás.

As operadoras de banda larga anunciaram que devem no ano que vem estabelecer um limite mensal de consumo de dados para assinantes de banda larga fixa, ou seja, o usuário compra um determinado pacote. Se caso extrapolar o consumo previsto dos dados neste pacote, ele tem a velocidade da internet reduzida ou mesmo o sinal cortado. É mais ou menos o que ocorre com a internet por celular.

A velocidade só aumentará se o consumidor contratar um plano adicional mais caro ou só depois da virada do mês do pacote.

Isso pode prejudicar justamente quem trabalha em home-office e necessita de um consumo de dados maior por causa de edições de vídeos, de fotos, envio de textos, programas de pesquisas, de conversação on-line, gráficos, etc… Isso sem contar o fato de um computador novo, com acesso a serviços de internet avançados e necessário para alguns tipos de atividades, consumir mais dados.

A (Anatel) Agência Nacional de Telecomunicações, do Governo Federal, que regula esta área, deve estar atenta em relação a isso.

A questão do acesso facilitado à internet em casa envolve o home-office que, por sua vez, tem relação com a geração de renda, com a redução de custos trabalhistas e que também interfere na qualidade da mobilidade urbana.

Fonte: Blog Ponto de Ônibus

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