Transporte público em São Paulo tem sua pior avaliação em uma década

O transporte público de São Paulo teve no último ano a pior avaliação dos passageiros em uma década –deixando em xeque tanto bandeiras do governador Geraldo Alckmin (PSDB) como do prefeito Fernando Haddad (PT).

Os resultados negativos são de pesquisa inédita da ANTP (Associação Nacional de Transportes Públicos) –referência de técnicos e financiada pelos próprios órgãos públicos e privados do setor.

O levantamento aponta que a maior queda foi na satisfação de usuários do metrô. Esse sistema já teve 93% de avaliações excelentes ou boas em 2006 –índice que estava em 75% em 2012 e caiu para 64% no ano passado.

A principal explicação para os resultados é a crescente superlotação, agravada por seguidos atrasos na expansão.

Mesmo com a piora, a aprovação do metrô ainda é muito superior à dos ônibus na capital. Bandeira da gestão Haddad, que apostou em faixas exclusivas, os coletivos municipais não tiveram nenhum sinal de recuperação na opinião dos passageiros.

Eles continuam com a pior avaliação dentre os principais meios – entre 2012 e 2014, a satisfação oscilou de 35% para 34%, dentro da margem de erro de dois pontos percentuais, mas foi a menor marca numérica em uma década.

Uma das explicações é que, na prática, os ônibus em geral estão quase tão lentos como sempre: em 2014, a velocidade do sistema ficou em 15 km/h, ante a meta de 25 km/h.

Os resultados do levantamento da ANTP eram divulgados com alarde anteriormente. Em 2013, ano marcado pelos protestos de junho, a pesquisa não foi realizada.

Os dados negativos do ano passado foram mantidos sob sigilo –mas vazaram por meio de um relatório do TCM (Tribunal de Contas do Município) de julho de 2015.

A pesquisa (com usuários frequentes) ouviu 3.300 pessoas na Grande São Paulo.

Os trens da CPTM também tiveram a pior marca numérica em dez anos –a aprovação oscilou de 44% para 40%, no limite da margem de erro.

Segundo especialistas, a demanda por transporte vem crescendo mais que a oferta, agravando a espera, a superlotação e a insatisfação.

“Tem mais gente usando e querendo usar, até por uma procura de alternativa ao carro, mas o sistema não está crescendo no mesmo ritmo, com novos corredores e linhas de metrô. As grandes inaugurações ainda não vieram para dar uma aliviada”, afirma Renato Arbex, mestre em transportes pela USP.

Em dez anos, a rede do metrô cresceu 36% e os usuários, 92%. Quase todas as obras do governo Alckmin estão atrasadas. Os corredores de ônibus de Haddad também patinam. De 150 km prometidos, somente 38 km tiveram as obras iniciadas até agora.

OUTRO LADO

As gestões Alckmin e Haddad dizem que outros levantamentos do Estado e da prefeitura apontam haver uma melhoria na avaliação dos serviços de transporte.

Elas não comentam nem questionam os resultados da pesquisa coordenada pela ANTP (associação de transportes públicos) –que tem financiamento de órgãos municipais, como SPTrans, e estaduais, como Metrô, e sempre foi referência de técnicos dos setores público e privado.

A Secretaria dos Transportes Metropolitanos, responsável pelo Metrô, CPTM e EMTU, afirma haver outros indicadores que “mostram de forma inequívoca a melhora dos índices de satisfação”.

A pasta ligada à gestão Alckmin cita pesquisa Datafolha de maio deste ano, feita com outra metodologia, que aponta o metrô como o melhor meio de transporte em São Paulo na opinião de 64% dos paulistanos.

Afirma que outro levantamento recente, sem especificar a data ou quem o fez, apurou que a satisfação dos usuários da CPTM “saltou para 68,7%, dez pontos percentuais a mais do que o último levantamento, feito em 2012”.

O secretário de Transportes da gestão Haddad, Jilmar Tatto, diz que as reclamações de usuários de ônibus da capital caíram 60% neste ano.

Cita medidas como a renovação da frota, a implantação de faixas exclusivas e a rede de linhas da madrugada.

“Todas as intervenções que temos feito na cidade são no sentido de melhoria do transporte, e outras pesquisas mostram que a mobilidade é uma área com avaliação bastante positiva”, afirma.

“Temos uma visão mais otimista. Ainda não está bom, reconhecemos que existem gargalos, mas, do ponto de vista comparativo com os anos anteriores, tem melhorado a cada ano o transporte na cidade”, diz Tatto.

No caso dos micro-ônibus, ele afirma que parte da insatisfação pode estar relacionada ao tamanho dos veículos. Diz que na nova licitação do transporte serão exigidos modelos maiores, com mais capacidade, para evitar a superlotação nessas linhas.

CORREDOR

A única melhoria sensível apurada pela pesquisa da ANTP foi no corredor de ônibus São Mateus-Jabaquara, gerenciado pela EMTU. A aprovação subiu de 67% para 75% e superou até mesmo a avaliação do metrô.

Com 33 km, o corredor liga a zona leste à zona sul da capital e passa ainda por Mauá, Santo André, São Bernardo do Campo e Diadema.

O sistema de 13 linhas é operado por uma concessionária privada (Metra) e tem um terço da frota em veículos elétricos, menos barulhentos.

Fonte: Folha de São Paulo

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