Mobilidade Urbana: Entrevista com o urbanista Thiago Guimarães

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Inauguramos hoje uma seção de entrevistas em nosso site. Abordaremos aqui assuntos relacionados à mobilidade urbana.

Para estrear esse espaço, convidamos Thiago Guimarães, jornalista pela ECA-USP, economista pela FEA-USP e mestre em Planejamento e Desenvolvimento Urbano pela HafenCity Universität Hamburg, da Alemanha, pesquisador do Instituto de Planejamento de Transportes e Logística de Hamburgo.

A entrevista foi conduzida pelo repórter Eduardo Silva.

Abordaremos aqui nesta entrevista um pouco da carreira do nosso entrevistado que em 2013 foi o vencedor do prêmio Max Brauer, o trabalho em que foi premiado permite avaliar ganhos sociais gerados por novas linhas de metrô e mostra que a futura Linha 6-Laranja do Metrô de São Paulo privilegia bairros mais ricos. Thiago Guimarães também discute temas como o monotrilho da Linha 15-Prata e sobre a realidade do transporte público na capital paulista.

Vamos às perguntas:

Primeiramente gostaria de agradecer a oportunidade de conversar com um especialista em urbanismo e mobilidade, tenho certeza de que essa conversa será esclarecedora para mim e para todos os nossos leitores. Quero agradecer, também, a disponibilidade em responder estas perguntas. O Mobilidade Sampa agradece imensamente!

1 – Me conte brevemente a trajetória da sua carreira. Como se deu seu contato com a área de urbanismo?

Como paulistano, tenho contato com sérios problemas urbanos desde a infância. Eu me formei em jornalismo pela Universidade de São Paulo muito motivado para discutir questões urbanas, em especial a mobilidade. Em seguida, concluí a graduação em Economia na USP, quando estudei e debati o pedágio urbano como estratégia para reduzir os congestionamentos e financiar o transporte coletivo em grandes centros urbanos, como São Paulo.

2 – Você atualmente reside e trabalha na cidade de Hamburgo, correto? Me conte sobre a sua vivência na Alemanha.

Cursei o mestrado em Planejamento e Desenvolvimento Urbano na Alemanha e, em seguida, recebi uma proposta de emprego no Instituto de Planejamento de Transportes e Logística, da Universidade Técnica de Hamburgo. Há sete anos, moro em Hamburgo, que tem desenvolvido projetos muito interessantes da perspectiva de uma cidade sustentável: um bunker em desuso após a Segunda Guerra se transformou em uma estação fornecedora de energia local, uma área portuária desativada se transformou em um bairro multifuncional, diversos projetos para a expansão e a melhoria do transporte coletivo (incluindo as bicicletas públicas) têm sido implantados.

3 – Você foi o ganhador do Prêmio Max Brauer, sobre o tema “os ganhos sociais e exclusões sociais gerados pelas novas linhas do metrô”. Este prêmio tem outras categorias de premiação ou foi a única? Pode me contar?

De dois em dois anos, a fundação Max Brauer ligada ao maior operador de transporte coletivo urbano da Alemanha organiza um concurso e premia estudos que tematizam o transporte coletivo. No ano passado, obtive o primeiro lugar com minha dissertação de mestrado sobre a planejada linha 6 de metrô de São Paulo. Nela, avalio a distribuição dos ganhos de acessibilidade ao emprego que devem ser propiciados por essa linha e concluo que, deste ponto de vista, a linha 6 gera mais benefícios para os grupos sociais mais ricos, melhor educados e residentes das áreas centrais da metrópole do que para os grupos socialmente mais excluídos.

Por que esse resultado é interessante? Os governos fazem propaganda, às vezes se orgulhando de investir enormes montantes de dinheiro no transporte. Em geral se pensa que projetos de transporte coletivo automaticamente beneficiam os mais pobres. Por meio deste trabalho, demonstro que isso não necessariamente ocorre, que não adianta fazer “qualquer coisa” e dizer que isso melhora a vida do povo. Apresentei os resultados do meu trabalho em primeiríssima mão a profissionais do Metrô de São Paulo, ainda em 2011, e o trabalho foi muito bem recebido.

4 – Aqui em São Paulo o senhor acha que o monotrilho da Linha 15-Prata do Metrô dará conta da demanda?

Até hoje não fui convencido de que essa linha de monotrilho dará conta da demanda. Não tenho conhecimento dos estudos de demanda ou das comparações entre o monotrilho e o metrô para esta linha. Em geral, acho que a introdução do monotrilho na agenda política dos transportes aconteceu de modo bem repentino. E houve pouca discussão técnica e quase nenhuma participação popular sobre a adequação do meio de transporte de média capacidade mais adequado para complementar a rede de metrô. A zona leste da cidade concentra bairros extremamente populosos e com poucas oportunidades de emprego. É uma região, portanto, que gerará muitas viagens para o trabalho. Vários especialistas temem que essa linha já nasça sobrecarregada.

5 – O senhor acha que as linhas de ônibus que saem dos terminais de ônibus da SPTrans (São Mateus, Cidade Tiradentes e Sapopemba) diminuirão a demanda com a chegada do monotrilho da Linha 15-Prata?

Espera-se uma significativa parcela dos atuais usuários de ônibus para o monotrilho, que oferecerá uma conexão mais rápida às regiões mais centrais da cidade. Muita gente que hoje toma um ônibus no terminal Cidade Tiradentes e só desembarca na parada final da linha deverá optar pelo monotrilho. Mas é difícil dizer se as situações de superlotação nos terminais e nos ônibus em horários de pico deixarão de existir.

6 – Seja na TV, jornal ou rádio o governo diz que o transporte público está melhorando e recebendo novos investimentos. A realidade é que o transporte público é insuficiente, vive lotado e desumano. Porque isso ainda continua?

A situação do transporte coletivo de São Paulo tem melhorado em alguns aspectos apenas e de modo muito lento e descontínuo. Desde os anos 1990 houve melhoras na qualidade do serviço do transporte sobre trilhos operado pela CPTM, mas o que ocorreu com o Metrô de São Paulo não deixa de ser revoltante. Apesar do tamanho restrito de sua rede, era praticamente um dos únicos serviços “de primeiro mundo” na cidade. Por muito tempo, o estado deixou de investir na expansão, na modernização e na melhoria do Metrô e deveria assumir sua responsabilidade no sucateamento desse modo de transporte fundamental para a metrópole paulista.

O governo municipal de São Paulo apostou bastante nos últimos meses na criação mais faixas exclusivas de ônibus, que contribuíram muito para agilizar e melhorar a qualidade desse serviço. Ônibus são o principal meio de transporte coletivo de São Paulo e é preciso valorizá-lo. Mas o transporte por ônibus ainda está longe de ser bom.

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