Por que as empresas devem se preocupar com Mobilidade Urbana?

Entrevista com Angelo Frias Neto

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Foto: Araripe Castilho

O empresário Angelo Frias Neto, diretor-presidente da Frias Neto Consultoria de Imóveis, tem uma longa história de amor com o ciclismo. Ganhou a primeira bicicleta aos 11 anos e, apesar dos inúmeros cargos que exerce e da vida atribulada, nunca deixou de lado a prática do ciclismo, que hoje compartilha com a família.

Essa vivência em relação a um meio de transporte sustentável coloca na pauta de preocupações do empresário a necessidade de se buscar alternativas de mobilidade urbana. A formação em engenharia, a atuação na presidência do Conselho da Acipi (Associação Comercial e Industrial de Piracicaba) e na diretoria estadual do Secovi São Paulo (Sindicato Patronal da Habitação) fazem com que Angelo Frias Neto entenda a urgência com que cidades de pequeno e médio porte, e não apenas capitais, revejam seus modelos de mobilidade. E que, nessa busca, os empresários sejam parceiros.

Acompanhe a entrevista produzida pelo portal parceiro Frias Neto Consultoria de Imóveis.

Por que os planos de mobilidade urbana precisam envolver toda a população?

Frias Neto – A Política Nacional de Mobilidade Urbana (Lei Federal nº 12587/2012) deixa claro que a prioridade deve ser dada ao transporte público coletivo e aos meios não motorizados, como bicicletas e caminhadas.

As cidades estão crescendo e o acesso fácil ao crédito faz a frota veicular crescer e trazer nessa esteira os problemas do trânsito cada vez mais intenso, com suas consequências negativas como tempo perdido em deslocamentos, estresse, problemas respiratórios e o impacto ambiental. São problemas que atingem a todos nós e sua solução passa pela participação do conjunto da sociedade para ser eficiente. Importante lembrar dos ganhos, em termos de saúde, que os meios não motorizados podem oferecer às pessoas.

A frota de Piracicaba tem crescido?

Frias Neto – Dados do Observatório Cidadão de Piracicaba mostram que entre 2002 e 2014 houve um crescimento constante do número de automóveis por cem habitantes no município. No período, esse índice passou de 27 para 45, um incremento de 67%, superior ao estadual, apesar de inferior a cidades como Campinas e Sorocaba e Jundiaí.

O que cada um poderia fazer para melhorar a mobilidade?

Frias Neto – Utilizar mais o sistema público de transporte, que precisa estar preparado para oferecer conforto, rapidez e baixo custo. E experimentar alternativas, como a bicicleta, desde que possa contar com um sistema viário adequado e campanhas de incentivo ao seu uso. E, em nível ampliado, cobrar dos governos a revisão de prioridades, no sentido adotar práticas que estimulem essa mobilidade sustentável. Vale lembrar que, mesmo em cidades com topografia mais complicada do que a de Piracicaba, como San Francisco, na Califórnia, o uso das bicicletas é incentivado, com orientações para a utilização racional de trechos mais complexos, inclusive com a disponibilização de mapas e aplicativos que facilitam a escolha de melhores trajetos, de forma a suavizar a topografia, além de incentivos das empresas junto aos seus empregados para que usem esse transporte.

De que forma o empresariado poderia colaborar?

Frias Neto – Durante a edição 2013 do Exame Fórum de Sustentabilidade, em São Paulo, a diretora do instituto de pesquisa ambiental WRI no Brasil, Rachel Biderman, disse que a questão da mobilidade é tão grave, que não se pode esperar apenas as ações dos governos. Para ela, as soluções devem vir de toda a sociedade e, principalmente, das empresas, com medidas inseridas nas chamadas políticas de responsabilidade corporativa.

Que medidas de responsabilidade corporativa são essas?

Frias Neto – Horários flexíveis de trabalho; investimento em equipamentos de telecomunicação, que permitam que os funcionários possam realizar reuniões sem deixar o espaço físico da empresa; um programa de incentivo às caronas. E, nos casos em que isso é possível, a possibilidade de o empregado trabalhar em home office algumas vezes por semana. Vou usar novamente o exemplo de San Francisco. Lá, as companhias criaram o Bike Day e Bike to Work, um dia no mês para a maioria delas e um dia oficial durante o ano em que todos os colaboradores são incentivados a ir pedalando para o trabalho. Para incentivar esta iniciativa, muitas empresas doam o valor que seus funcionários economizam com o transporte público nesse dia, para uma instituição de caridade da preferência deles.

Como Piracicaba está em termos de ciclovias?

Frias Neto – Dados também retirados do Observatório Cidadão de Piracicaba mostram que entre 2009 e 2012 houve um aumento de quase 500% na extensão da rede de ciclovias e ciclofaixas. Mas em 2014 esse número se mantinha igual. Comparando-se com outras cidades, a rede cicloviária de Piracicaba ainda é pequena e acredito que isso pode ser revisto com bons resultados. Vou lembrar dois exemplos. Madri, capital da Espanha, tem 316 quilômetros de ciclovias e tem investido na adequação de vias para o compartilhamento com veículos. Conhecidas como ciclocarril, o tráfego nessas vias é preferencial para bicicleta e a velocidade máxima é de 30 km/h. A sinalização de solo e vertical, indica ao motorista a lógica da via. A cidade também conta com seis vias expressas que se conectam formando um anel viário ciclístico em torno de Madri e que recebem o tráfego das ciclovias menores.

Além disso, Madri foi a primeira capital europeia a contar com um serviço público de bicicletas elétricas. O outro exemplo é Nova York, nos Estados Unidos, onde a extensão da rede cicloviária duplicou entre 2007 e 2010, chegando a 480 km de ciclovias e ciclofaixas. O planejamento urbano também mudou a partir da revitalização que alterou a paisagem de pontos turísticos, como a Times Square, que suprimiu faixas de rolamento para automóveis. Elas viraram não só ciclovias, como também espaços para pessoas, com mesas e locais de convivência, humanizando as ruas.

O aumento da extensão de ciclovias está diretamente relacionado ao uso desse meio de transporte ou surge para incentivar sua utilização?

Frias Neto – Acho interessante citar a tese doutorado ‘A mobilidade por bicicletas em Piracicaba: aspectos culturais, ambientais e urbanísticos’, defendida por Miriam Rother, da Escola Superior de Agricultura ‘Luiz de Queiroz’ (Esalq/USP). Ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, a bicicleta não é só usada por estudantes universitários na cidade, Miriam achou outra realidade. São os trabalhadores que usam a bicicleta para ir e vir do emprego. Sua análise apontou que 47% dos ciclistas são empregados, 5% empresários, 8% autônomos, 32% estudantes e 8% estavam sem emprego. Com relação ao nível de escolaridade, 38% têm o ensino médio, 35% a graduação em ensino superior, 22% têm o ensino fundamental, 2% não têm escolaridade e 2% têm pós-graduação. Então, temos demanda para ciclovias e a melhor estruturação vai ampliar automaticamente o uso desse transporte.

O que a Frias Neto tem feito para incentivar o uso de um transporte sustentável?

Frias Neto – Temos um bicicletário em nossa sede, um sistema de comunicação muito avançado, justamente para evitar deslocamentos e garantir reuniões em teleconferência. Além disso, promovemos um passeio anual de bicicleta, justamente par difundir o uso desse transporte, uma ação diferenciada que repercutiu muito além do universo do mercado imobiliário. O Passeio Ciclístico Frias Neto Pedala pelo Clima se tornou parte do calendário oficial de eventos de Piracicaba. Acho que o sucesso da sua realização tem muito a ver com os pilares sobre os quais a ação foi concebida: o incentivo à adoção de um meio de transporte sustentável, engajamento com a sociedade, relacionamento com clientes e também solidariedade, uma vez que doações para entidades são pedidas no lugar de taxas de inscrição. Além disso, a Frias Neto foi uma das apoiadoras, juntamente com a Prefeitura de Piracicaba, da criação da equipe de ciclismo Green Piracicaba, que compete em nível nacional e tem honrado com excelentes resultados o nome do ciclismo piracicabano.

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