Retirada de trens fora do pico gera efeito sardinha nos outros períodos

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FOTO: RODRIGO DIONISIO/FRAME/FOLHAPRESS

A sua percepção de que o metrô parece uma lata de sardinha durante vários períodos do dia, mesmo fora dos horários de pico, está correta.

O movimento é grande nas horas de “rush” (das 7h às 9h e das 17h às 19h), quando o Metrô oferece sua frota completa, mas nos horários intermediários —chamados pelos técnicos de “vale”—, embora o fluxo de pessoas caia, o desconforto continua.

Dados obtidos pela sãopaulo mostram que isso acontece porque trens são retirados de circulação.

“É natural tirar trens em horários com menor demanda para manutenção e economia de energia, mas em Nova York, por exemplo, existe alternativa ao usuário, como linhas paralelas”, explica Sergio Ejzenberg, consultor em transportes.

Entre 12h e 14h, por exemplo, a linha 4-amarela recebe quase 30 mil passageiros por hora e tem sete trens disponíveis. No pico da manhã, são mais de 64 mil pessoas com 13 trens. “O nível de desconforto é o mesmo”, avalia o consultor em engenharia de transporte de pessoas Horácio Figueira, a partir dos dados apresentados pela revista.

As alunas de relações públicas Bárbara Pereira, 20, e Franciele Miranda, 22, sabem bem disso. De segunda a sexta, saem da faculdade, na Paulista, e seguem para o estágio, na região da Berrini, às 12h. Tomam as linhas 2-verde e 4-amarela, do Metrô, além da linha 9-esmeralda, da CPTM. Todas lotadas. “Não é sempre que consigo entrar no primeiro trem”, diz Bárbara.

Quem volta mais tarde também se espreme. Das 5h às 6h, 18 mil pessoas disputam oito trens na linha 4-amarela; das 20h às 21h, mais de 27 mil pessoas ocupam os mesmos oito trens.

O Metrô diz que diminuir o número de trens —e fechar nas madrugadas— é necessário e que a rede oferece conforto para os passageiros fora do horário de pico. “Retiro os trens porque toda a manutenção preventiva é feita nesse horário [de vale]”, diz Mário Fioratti, diretor de operações do Metrô.

No horário de pico, o Metrô calcula que existam seis pessoas por metro quadrado. No vale, são duas. “Se eu mantivesse o mesmo número de trens durante o dia todo, provavelmente todo mundo andaria sentado”, diz Fioratti. “Mas a manutenção é justamente para prevenir que não apareça uma falha durante a operação comercial.”

Já o consultor Figueira diz que a retirada de trens afeta a qualidade. “Se você tivesse mais oferta, atrairia gente em outros horários fora do pico. Se retira trem, prejudica o usuário.”

Além da linha amarela, operada pela iniciativa privada, o efeito sardinha prolongado se espalha por outros trajetos. A linha 1-azul, das 9h às 10h, opera com 40 trens para 58.700 passageiros. Das 12h às 13h, passam por ali 57 mil pessoas, com 34 trens em operação. Cada trem transporta, em sua capacidade máxima, cerca de 2.000 pessoas.

Na linha 3-vermelha, o volume de passageiros entre 13h e 14h e entre 19h e 20h é praticamente o mesmo (65 mil contra 63.700). À noite, 40 trens operam simultaneamente. No início da tarde, são 34. Pela manhã, entre 6h e 7h, 86.700 pessoas disputam espaço nos mesmos 40 trens que operam à noite.

Por volta das 11h de uma segunda-feira, as aposentadas Fátima Vianna, 63, e Dorana Melnik, 66, eram duas das 58 mil pessoas que procuravam a linha 3-vermelha entre 11h e 12h e encontravam 34 trens disponíveis.

Elas esperavam o trem na Sé para seguir até a estação Marechal Deodoro, onde moram há 20 anos. Vindas da estação Tietê, tiveram de esperar o segundo trem para subir. “Tem gente saindo pelo ladrão”, dizia Fátima.

Mesmo no segundo trem, as duas lutavam por espaço com outras dezenas de passageiros. “A gente começou a perceber que o movimento aumentou depois da linha 4-amarela, pois muitas pessoas descem na República [para baldeação]”, afirmou Dorana.

A sãopaulo fez o caminho em todos os dias úteis durante um mês e constatou que, na faixa das 13h, os trens que chegam à Sé em direção à Barra Funda estão sempre lotados.

Quando param, os vagões estão cheios e o espaço não é suficiente para absorver a quantidade de pessoas que tentam entrar. Assim, é necessário esperar até dois trens para embarcar.

No caso da linha amarela, nem mesmo no horário de pico a frota opera integralmente. São 13 trens —embora a ViaQuatro diga 14— entre 17h e 17h59, quando recebe 64.146 passageiros. Na hora seguinte, o número sobe para 69.890 e o de trens cai para 12. Há menos trens e mais passageiros.

A concessionária ViaQuatro, que administra a linha amarela, informou que opera com frota máxima nos horários de pico (14 por hora). A planilha enviada pela empresa e obtida com base na Lei de Acesso à Informação, no entanto, mostra que a frota máxima soma 13 carros.

MAIS FREQUÊNCIA

Segundo o Metrô, o intervalo entre os trens é de 120 segundos no horário de pico e de 150 no de vale. Na linha 4-amarela, o intervalo é de 128 segundos e 219 segundos, respectivamente.

Para diminuir em 20% esse intervalo, foi instalado o CBTC (sistema de sinalização), em teste desde 2012 na linha 2-verde, entre as estações Sacomã e Vila Prudente, e ao longo de toda a extensão da linha nos fins de semana.

O sistema é responsável por garantir a distância mínima segura entre trens, diminuindo o intervalo.

O teste está sendo feito na linha 2-verde porque ela irá absorver o fluxo do monotrilho, que virá da zona leste. Não há prazo, no entanto, para o sistema elevado ficar totalmente pronto.

Sobre o funcionamento 24 horas, o Metrô diz que “não existe alternativa técnica [porque é preciso fazer a manutenção]”. Para isso, seria necessária uma linha paralela.

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